A fé e as obras - Paulo e Tiago
Pastor Washington Roberto Nascimento
Carta de Tiago, capítulo 2; e Carta aos Romanos, capítulo 4, do Apóstolo Paulo
Tiago, em sua carta, capítulo 2, escreve sobre a justificação pelas obras, e cita Abraão como base de sua argumentação para a defesa e explicação de sua tese: A justificação pelas obras; a fé sem obras é morta.
O Apóstolo Paulo, em sua Carta aos Romanos (e em sua Carta aos Gálatas e aos Efésios também), escreve sobre a justificação pela fé, sem as obras da lei, por meio da graça de Deus, e cita Abraão como um de seus argumentos para a defesa e explicação de sua tese: A justificação pela fé apenas, sem as obras da lei.
Há muitas pessoas que pensam que o Apóstolo Paulo escreveu sobre a justificação pela fé para refutar o que Tiago havia escrito sobre a justificação pelas obras. Isso levando em conta que Tiago escreveu antes do Apóstolo Paulo.
Tiago foi o primeiro escritor do Novo Testamento e o Apóstolo Paulo o segundo, possivelmente por meio de sua Carta aos Gálatas, onde ele cita Tiago (Tg. 2:9), e cita Abraão, também, como uma base nas Escrituras do Antigo Testamento para a defesa da sua tese da justificação pela fé na graça de Deus revelada em Cristo Jesus (Gl. Capítulos 3 e 4).
Tiago usa em seu texto (Tg. 2), onde cita Abraão, o verbo justificar - δικαιόω – (Tg. 2:21, 24, 26); o substantivo justiça – δικαιοσύνη – (Tg.2:23); o verbo crer - πιστεύω – (Tg. 2:19, 23), e o substantivo fé - πίστις – (Tg. 2:1, 5, 14, 17, 18, 20, 22, 24, 26).
O Apóstolo Paulo usa o mesmo personagem de Tiago – Abraão – e o mesmo vocabulário: justificar - δικαιόω – (Rm. 4:2, 5); justiça – δικαιοσύνη - (4:3, 5, 6, 9, 11 {2x}, 13, 22); crer - πιστεύω – (Rm. 4:3, 5, 11, 17, 18, 24); fé - πίστις – (Rm. 4:5, 9, 11, 12, 13, 14, 16, 19, 20).
Como podemos reconciliar as ideias do apóstolo Paulo com as ideias de Tiago, irmão de Jesus e líder da Igreja Primitiva no primeiro século?
Precisamos procurar entender qual era o problema que ambos procuravam resolver. O Apóstolo Paulo procurava resolver o problema da justificação do ser humano perante Deus. Tiago procurava resolver o problema de como o ser humano pode justificar (revelar, provar, explicar) sua fé diante dos homens (não diante de Deus). O objetivo do apóstolo Paulo era diferente do objetivo de Tiago. O foco do apóstolo Paulo era a dimensão vertical da justificação pela fé. O foco de Tiago era a dimensão horizontal da justificação pelas obras.
Diante de Deus nossas obras não têm valor para a nossa salvação, para quitar nossa dívida diante do Senhor, para nos justificar, declarar justos, diante de Deus. Porém, diante do mundo, das pessoas, o crente precisa revelar as obras de sua fé, caso contrário sua fé é morta e não é uma fé viva, pois as pessoas não veem o nosso coração, mas veem as nossas obras.
A palavra justificar - δικαιόω – tem não apenas um sentido ou um uso. Em Mateus 11:19 e Lucas 7:35 nós vemos o uso do verbo justificar - δικαιόω – no sentido de explicar (revelar), diante dos homens, a salabedoria - σοφία - que é Jesus (Pv. 8).
Além disso, é importante dizer que o apóstolo Paulo ao citar Abraão faz referência direta ao texto de Gênesis 15:6, que mostra Abraão antes da circuncisão e antes da outorga da lei (Rm. 4:3); enquanto Tiago ao citar Abraão faz referência, principalmente, ao texto de Gênesis 22, quando Abraão dá prova de sua fé em Deus, ao obedecer Sua ordem de oferecer o seu filho Isaque em sacrifício (Tg. 2:21).
Conclusão
O Apóstolo Paulo está falando de algo diferente daquilo que Tiago estava falando. São duas coisas distintas, mas não contraditórias. Elas se completam.
Jesus falou sobre o tema do apóstolo Paulo, a justificação diante de Deus, por meio da fé na Graça de Deus (revelada em e por Cristo Jesus - Jo. 3:5-15; 11:25-26; Mt. 21:31-32).
Porém, Jesus falou, também, sobre a tese de Tiago, a importância da fé e das obras neste mundo, diante dos homens, para a revelação da glória de Deus por meio de seus filhos (Jo. 14:12-14; Mt. 25:31-46).
O apóstolo Paulo fala da fé que salva; Tiago fala dos frutos da fé que salva. O apóstolo Paulo fala da raiz de uma árvore chamada fé que só Deus vê; Tiago fala dos frutos dessa mesma árvore chamada fé, os frutos que as pessoas deste mundo veem. Em Gênesis 22 nós temos o fruto – frutos – efeitos; em Gênesis 15 nós temos a raiz – a causa de nossa salvação, que só o Senhor vê.
Na verdade, a Bíblia ensina que não há uma fé viva, salvadora que não revele os seus frutos de arrependimento, humildade, domínio próprio, paciência, amor, bondade para com todas as pessoas.
A fé bíblica tem dimensões verticais e horizontais e o apóstolo Paulo falou, também, dessa dupla dimensão de nossa fé (veja Romanos 2:13). Jesus, também, falou de ambas as coisas: uma fé com dimensão vertical (Mt.21:31-32; Jo. 2:15-15; 11:25-26); e com dimensão horizontal (Jo. 14:12; Lc. 6:43-46); Mt. 25:31-46).
Não devemos interpretar um texto bíblico fora de seu contexto histórico e fora do contexto geral das Escrituras. A Bíblia como um todo nos ajuda a entender cada uma de suas partes. Na hermenêutica de um texto não podemos ignorar o que o seu escritor está buscando resolver (qual o problema de seus leitores/ouvintes) ou qual a tese que ele busca defender naquele momento histórico.
A Bíblia nos ensina que a salvação em Cristo Jesus tem a ver com uma nova vida, uma nova criatura, guiada pelo Espírito Santo. Isso não significa que sejamos perfeitos, mas quando erramos não temos prazer no erro, nos arrependemos e com fé no amor e perdão de Deus prosseguimos buscando viver uma vida de fé que agrade a Deus como seus filhos aqui na terra, guiados pelo Espírito Santo.
Nós somos salvos pela fé e nós vivemos pela fé em um Deus que se revelou em Cristo Jesus cheio de graça e verdade (Jo. 1:14-18). Pois, caso ele levasse em conta os nossos erros (falhas, pecados, iniquidades), quem poderia ficar de pé diante dele? (Sl. 130:3).
O nosso Salvador é Deus misericordioso, que perdoa as nossas falhas. Nele há indescritível salvação pela fé (Sl. 130) que se manifesta diante dos homens através de nossas boas obras, para Sua honra e glória (Ef. 2:8-10).