A misericórdia e a verdade se encontraram, a justiça e a paz se beijaram
Pastor Washington Roberto Nascimento
Salmo 85:10
Os ensinos bíblicos mais preciosos têm a ver com misericórdia - חסד – (lê-se: ressed), verdade - אמת – (lê-se: emeth) - justiça - צדק – (lê-se: sédeque) - e paz - שלום - (lê-se:Shalom).
Abrir o coração para o pobre, o faminto, o órfão, a viúva e o estrangeiro é abrir o coração para o Deus revelado em Cristo. Ele é misericórdia, verdade, justiça e paz. É nele que temos esse maravilho encontro. E quando cultivamos e revelamos essas coisas, nutrimos um espírito de humanidade, igualdade e fraternidade, não apenas em nós, mas em nosso lar, igreja, escola, trabalho, país e mundo.
Só podemos viver movidos por esses atributos divinos, quando tivermos uma compreensão não apenas de nosso ancestral comum – nosso Pai Celestial - mas de nossa humanidade comum.
Podemos ter muitas coisas que nos separam, mas as que nos unem são muito mais poderosas. Temos, lá no fundo de nosso ser, de nossa alma, as mesmas necessidades, a mesma fome, a mesma sede: misericórdia, verdade, justiça e paz. Pode haver, e há, diferentes palavras, usadas por diferentes pessoas, em diferentes tempos e lugares, mas a ideia fundamental, essencial – com raízes em nosso ser interior – é a mesma. Esses são os valores do Reino de Deus que nos sustentam como seres humanos.
Logo depois da libertação do povo de Deus da escravidão imposta por um governo estrangeiro inimigo, Deus disse para o seu povo: Não oprimam um estrangeiro; vocês conhecem a alma do estrangeiro, porque vocês foram estrangeiros na terra do Egito (Êxodo 23:9).
Deus ensina o seu povo a tratar o inimigo com uma justiça que se encontra de mãos dadas com a misericórdia. Ele diz: Se você encontrar o boi ou o jumento extraviado, do seu inimigo, traga-o de volta para ele (Êx. 23:4) e mais: Não torça a justiça para favorecer uma pessoa pobre ou rica (Êx. 23:6); não torça a justiça com mentiras (Êx. 23:7); não torça a justiça com suborno. Somos instruídos a agir com misericórdia, verdade e justiça na construção da paz.
A palavra “estrangeiro” - גר – (lê-se: ger) - pode significar muitas coisas: uma pessoa de outra nacionalidade, etnia, cor de pele; uma pessoa diferente; uma pessoa que não é da nossa religião; uma pessoa que não está em seu lugar de origem, está longe de sua terra ou casa; uma pessoa que esteja fugindo da guerra, da perseguição, da fome, da calamidade.
O Senhor disse que não devemos oprimir o estrangeiro porque conhecemos a sua alma. Esse conhecimento não é apenas cognitivo, não é a verdade fria; mas a verdade que está de mãos dadas com a misericórdia e que por isso é capaz de gerar justiça e promover a paz.
Só temos condições de conhecer a alma de nosso próximo com os olhos da misericórdia, só assim podemos sentir a sua dor. Só podemos conhecer o nosso próximo quando temos fome e sede de justiça, como ensinou Jesus (Mt. 5:6). Só seremos capazes de conhecer a alma de nosso próximo quando soubermos seguir a verdade em amor (Ef. 4:15). É preciso conhecer mais, muito mais, do que a simples biografia, língua, sotaque, região ou nacionalidade. Não basta saber se é de São Paulo, norte, nordeste ou Minas; da Ucrânia, Síria ou Turquia.
Somos desafiados pelo Senhor a conhecer a alma de um estranho, de nosso próximo à beira do caminho, em estado de tremenda necessidade. Mas como? É possível ter um nível de empatia tão intenso que se revele em gesto de misericórdia, verdade, justiça e paz?
Precisamos vencer as barreiras para ativar a verdadeira compaixão que age com justiça em favor da paz. O foco crítico, de julgamento e condenação do outro, por causa das coisas que ele tem ou é, que o faz, aos nossos olhos, estranho ou diferente, precisa mudar. Nosso foco precisa estar na misericórdia, verdade, justiça e paz.
As reportagens das atrocidades no mundo – perto ou longe - podem produzir uma fadiga em nós. De tanto ver e ouvir sobre a guerra, a fome, a enfermidade, a morte, podemos nos acostumar e nos acomodar. O ciclo interminável de más notícias pode ser demais para lidar, digerir, entender. Por isso, podemos pensar que não tem jeito. Não há coisa alguma que possamos fazer.
Entretanto, o que Deus está pedindo de nós é algo possível e é algo bom para o outro e para nós também. Quando ajudamos o próximo, ajudamos a nós mesmos.
O chamado de Deus, revelado em Sua Palavra e por meio de Cristo Jesus, para tratarmos nossos semelhantes – por mais distantes ou próximos que sejam ou estejam – com misericórdia, verdade e justiça é uma maneira de realizarmos o sonho de Deus, de construir uma nova humanidade, onde todos somos um (Gl.3:28; Ef. 2:16-19).
Cumpramos a missão, como Igreja de Jesus. A ordem já foi dada. Anunciemos as boas novas. Sejamos sal e luz na terra. Que a misericórdia e a verdade se encontrem; que a justiça e a paz se beijem!
Um forte abraço.