A propósito do nada.

Data publicação 26/03/2020

A propósito do nada.

Há vários textos na Bíblia que falam sobre o nada. Esta palavra: Nada, ou a sua ideia, é representada por várias palavras e frases em diferentes contextos bíblicos.

Nada trouxemos para essa vida e dela nada levaremos (I Tm. 6:7; Jó 1:21; Sl. 49:16, 17). A ajuda do Egito não vale nada (Is. 30:7).

A palavra “nada” no texto hebraico de Isaías 30:7 é הֶבֶל (hevel), é a mesma palavra do texto hebraico de Eclesiastes 1:2, 14; 2:1, etc. Trata-se, também, da mesma palavra do texto grego da LXX - μάταιος (mátaios), tanto no livro de Isaías quanto no livro de Eclesiastes.  

A ajuda do Egito não vale nada por uma simples razão: não vem do Senhor, não tem o Seu sinete. É Ele quem dá valor às coisas e á nossa existência. Nossa vida sem ele é nada.

O que é a vida de vocês? (Tg. 4:14). Vocês não são nada mais que um vapor que aparece por um pouco e logo se desvanece. A duração de nossa vida em termos de tempo e espaço se reduz a uma fração desprezível. Se considerarmos a eternidade e a infinitude, nossa existência é nada.

O escritor do livro de Eclesiastes no Antigo Testamento, semelhante a Tiago no Novo Testamento, também fala a propósito do nada. Eclesiastes ensina que a satisfação, a realização, o sentido da existência, só se encontra no metafísico, no além da matéria e do tempo, e não naquilo que está debaixo do sol (expressão que ocorre cerca de vinte e nove vezes neste livro). Precisamos do Ser que está acima do sol cujo brilho é mais resplandecente do que o sol ao meio dia (At. 26:13; Ec. 1:13, 14; 2:3, 11; 12:13 etc). O valor do nada só se revela na sua relação metafísica com o Outro, o seu avesso.

Uma das palavras chaves do livro de Eclesiastes, que já mencionamos um pouco acima, é muito importante para o entendimento do sentido, da ideia do "nada". Trata-se da palavra vaidade - הֶבֶל (hevel) - que ocorre quase vinte vezes neste livro (Ec. 1:2,14; 2:1,11,15,17,19,21,23,26; 3:19; 4:4,7,8,16; 5:7,10; etc). 

No hebraico esta palavra: vaidade é הֶבֶל (hevel). Signfica vapor. A ideia é de vazio. Esta ideia encontra-se preservada na tradução da LXX, onde temos a palavra grega: ματαιότης (mataiótes) ou μάταιος (mátaios), que significa: vaidade, vazio, irrealidade, falta de propósito, ineficácia, instabilidade, fragilidade. Trata-se do nada.

O salmista, também, aborda o mesmo tema: a propósito do nada: “Como é curta a vida que me deste! Diante de ti, a duração da minha vida não é nada. De fato, o ser humano é apenas um sopro - הֶבֶל (hevel)/ ματαιότης (Palavras na תַּנַךְ  - tanach ou tanahk – Bíblia Hebraica – 39:5; e na LXX - Sl. 38:6).

Em termos de religião, aprendemos na Bíblia que os deuses desse mundo são nada (I Co. 8:4). A circuncisão é nada (I Co. 7:19; Rm. 2:25-29). Todas as tradições e credenciamentos religiosos são insignificantes, esterco, lixo, nada, para o apóstolo Paulo (Fp. 34-9). O que ele pensava ter algum valor, agora, não tem valor algum. Seu encontro com o Cristo de Deus, o Grande Eu Sou, foi o momento da grande virada. Ele pensava que fosse bem-aventurado, mas era miserável. Pensava que via, mas era cego. O que conta é a nova criatura que nasce pela fé a partir do encontro com o Eterno (Gl. 5:6; 6:15).

Em termos de obra, trabalho, empreendimentos, aprendemos na Bíblia que sem o Eterno, não adianta nada tentar construir a casa (Sl. 127:1-2), pescar peixe à noite inteira (Lc. 5:5; Jo. 21:3). Sem Ele, nada podemos fazer (Jo.15:5), nada somos.

O Grande Eu Sou foi ao encontro de Moisés. Queria fazer do nada algo de valor. A iniciativa é sempre dEle. É Ele quem vem ao encontro de Abraão, Moisés, Davi, Paulo, você e eu. Depois que o Senhor encontra Moisés e explica a sua missão, Moisés pergunta a Javé, revelando toda a sua incredulidade: “Quem sou eu?” (ÊX. 3:1-11).

Como é difícil saber quem somos! Somos o nada um dia imaginado por aquele que é tudo. Como negar o nada que somos e fazemos? Na aceitação do nada descobrimos o seu valor. O sentido do nada acontece através do encontro com o Eu Sou, seu verdadeiro oposto. É claro que o nada pode sofrer de insanidade e pensar ser o super homem (de Nietzsche), ou dizer que o inferno é o outro (de Sartre).

Moisés, depois de passar 40 anos no Palácio, pensou que fosse o super homem. Acreditava poder salvar o seu povo (Êx. 2:11-12). No dia seguinte, pensou que o outro fosse o inferno, não importando a nacionalidade: egípcia ou israelita (Êx. 2:13-15). Somos todos nada.  Nada adquire autoconsciência à luz do Ser, daquele que Foi, É e Será - o Grande Eu Sou.

Depois de passar 40 anos nas melhores universidades de seu tempo, Moisés pensava que fosse deus. Mas, os 40 anos seguintes no deserto fê-lo aprender que era nada. Estava dominado pela visão niilista quanto a tudo incluindo a si mesmo. Quando o Grande Eu sou o encontrou, descobriu o valor do nada, o valor de si.

A leitura de Moisés e de Paulo das coisas que eles viam estava baseada na presunção do ser que não eram. As coisas deste mundo têm infinitas possibilidades de leitura. Nossas ideias e sentidos não alcançam a realidade do Ser em termos ontológicos, não apenas do outro, mas, também, de nós mesmos, como nada, ou um ser incompleto. A consciência do incompleto, do nada que se é, possibilita o encontro com o Ser e de se criar a partir do nada. A tomada de consciência do nada que nos esmaga, é o terreno fértil para a semente do Ser germinar e assim fazer nascer a nova criatura que é dinâmica e não estática, cresce e se transforma a cada dia.

O Eu Sou faz milagres com o nada, dá-lhe significado, importância, valor e vida que faz caminho enquanto se caminha (Fp. 3:12-14). Para que o Nada não tenha Nada de que se gloriar, a propósito do Nada. Soli Deo Gloria!

Pastor. Washington Roberto Nascimento.