Ainda não é o fim - Uma Breve reflexão em Marcos 13, Mateus 24 e Lucas 21

Data publicação 08/08/2021

Ainda não é o fim Uma Breve reflexão em Marcos 13, Mateus 24 e Lucas 21

Pastor Washington Roberto Nascimento.

Uma breve Exposição textual do sermão escatológico na perspectiva da esperança em Cristo.

Introdução: O assunto do capítulo 13 do Evangelho de Marcos – a iminente queda do templo, a volta de Jesus e o fim do mundo - tem o seu equivalente em Mateus 24 e em Lucas 21.

Jesus, ao sair do templo, ouviu um de seus discípulos exaltar a arquitetura daquela grande construção. Este templo não foi o primeiro que o rei Salomão construiu (séc. X a.C), e que, mais tarde, foi destruído pelo Império Babilônico (séc. VI a.C).

Nos dias de Jesus o que temos é o segundo templo, que foi reconstruído no período Persa (final do séc. VI a. C) e remodelado por Herodes, o Grande (final do séc. I a.C).

A beleza do templo de Jerusalém era inquestionável. Ao ouvir os elogios de seus discípulos a respeito da maravilhosa construção, Jesus, para surpresa de todos, imediatamente, prediz um julgamento implacável sobre aquela casa de culto e sobre toda a nação: “Tudo será destruído. Não ficará uma pedra em cima da outra” (Mc. 13:2). Ao profetizar dessa maneira, Jesus se alinha aos profetas do Antigo Testamento (Mq. 3:12; Jr. 26:18; 9:11) que também vaticinaram em seus dias contra a nação de Israel e o templo.

Nenhum lugar de culto, nenhum ritual religioso, nenhum calendário eclesiástico poderá substituir o nosso relacionamento pessoal com Deus marcado por um coração quebrantado e contrito, um culto em espírito e em verdade. Deus é a única fonte de nossa segurança e paz.

O templo, o culto que ali acontecia, a nação, tudo isso havia se transformado em um ídolo, uma veneração, uma idolatria. Precisamos tomar cuidado para que o mesmo não aconteça conosco. Os meios não podem se transformar no fim. O fim é Deus, o alvo é Ele.

Os discípulos ficaram tão impressionados com a palavra profética de Jesus que lhe fizeram várias perguntas. Quando comparamos o texto de Marcos 13:3-4 com Mateus 24:3, descobrimos, pelo menos, três perguntas: 1. Quando será a destruição do tempo? 2. Quando será sua vinda com poder e glória? 3. Quando será o fim do mundo?

As respostas de Jesus a essas perguntas requerem cuidado especial, pois elas se encontram entrelaçadas, tecidas juntas. Os eventos mencionados neste texto parecem um só, pertos um do outro, mas são como montanhas em perspectiva no horizonte distante. A sensação é que elas estão próximas, quando, na verdade, estão distantes.

Jesus está chegando ao final de seu ministério aqui na terra. Estamos em seus últimos dias. Há uma tensão espiritual e política. Os líderes judeus estão ao encalço de Jesus. Querem prendê-lo e mata-lo. O Império Romano domina com mão de ferro a Palestina. Qualquer tentativa por parte dos judeus contra Roma teria uma resposta implacável. Jesus faz a leitura correta de todo o drama político e religioso de seus dias. Tudo será destruído.

Há mais de uma dezena de imperativos neste capítulo 13 de Marcos e eles revelam não apenas as respostas de Jesus para as perguntas acima, mas o seu cuidado pastoral para com sua igreja.

1. Tenham cuidado para que ninguém engane vocês.

“Então Jesus começou a ensiná-los. Ele disse: Tomem cuidado para que ninguém engane vocês” (Mc. 13:5).

É muito triste ser enganado, mas muita gente tem sido enganada ao longo da história porque tem acreditado nos sinais de seus dias como sendo os sinais mencionados aqui por Jesus: guerras, rumores de guerra, terremotos e fome. Esses sinais aconteceram e acontecem em diferentes períodos da história.  À luz da Bíblia, o período conhecido como os últimos dias teve o seu início quando Jesus ascendeu aos céus.

Precisamos tomar cuidado para não sermos enganados. É por isso que precisamos conhecer bem a Palavra de Deus. Não se precipite em dizer que Jesus vai voltar amanhã só porque hoje houve um tremor de terra ou rumores de guerra.

2. Tenham cuidado na hora do sofrimento

“Vocês precisam ter cuidado porque serão presos e levados aos tribunais e serão chicoteados nas sinagogas. Por serem meus seguidores, vocês serão levados aos governadores e reis para serem julgados e falarão a eles sobre o evangelho” (Mc. 13:9).

Há muitas pessoas que abandonam a fé em Deus diante do sofrimento.

A Bíblia ensina que é impossível uma vida sem sofrimento mesmo quando a pessoa procura fazer tudo certo. Jesus, mais do que qualquer outro, nos ensina como enfrentar a dor e a perseguição, sem se desviar do caminho.

É na hora do sofrimento que mostramos ao mundo que não servimos a Deus em troca de bênçãos materiais. Deus não compra a nossa fidelidade com favores. Caso fosse assim, nossa relação com Ele seria mercantilista e o nosso caráter mercenário.

Jesus nos ensina fidelidade incondicional a Deus, o Seu Pai e nosso Pai. Perseverança na fé na adversidade é o que se espera de seus seguidores.

Em um mundo que rejeita a Jesus Cristo, precisamos estar preparados para enfrentar a perseguição como algo inevitável. A melhor maneira de fazê-lo é vivermos cheios do Espírito Santo. Por isso, Jesus nos diz: “não se preocupem, quando a hora da perseguição chegar, digam o que Deus lhes der para dizer. As palavras que disserem não serão de vocês mesmos, mas virão do Espírito Santo (Mc. 13:11). Ele nos capacita quanto ao que falar e quanto ao que fazer.

3. Tenham cuidado de aprender e saber o que o texto ensina.

Aprendam, pois, a parábola da figueira...Assim também, quando virem acontecer essas coisas, saibam que o tempo está perto” (Mc. 13:28, 29).

O povo de Deus está sendo destruído porque lhe falta conhecimento (Os. 4:6). Uma pessoa sem conhecimento se torna vulnerável e pode ser facilmente enganada por falsos mestres.

Há muitas pessoas que se apresentam em nome de Jesus ou em seu lugar em diferentes tempos de nossa história.  Elas podem confundir os crentes que não aprenderam bem a Palavra de Deus. Satanás e seus servos operam sinais e prodígios com propósitos malignos, realizam plágios, imitações fraudulentas do Poder de Jesus e torcem o sentido de Suas Palavras com propósitos escusos (Mc. 13:22; II Co. 11:14-15; Mt. 4:1-11).

4. Tenham cuidado de orar e vigiar.

“Vigiem e orem, porque vocês não sabem quando chegará o tempo. Vigiem” (Mc. 13:33, 37).

Não há como exagerar no valor de orar e vigiar. A oração é uma das marcas mais importantes na vida daquele que crê em Deus. A oração revela a nossa dependência de Deus e a nossa fé no caráter dele como o provedor. Ele é a fonte que supre todas as nossas necessidades (Fl. 4:19).

Deus pode suprir nossas necessidades materiais, mas as maiores necessidades que temos são espirituais: amor em um mundo cheio de ódio; esperança em um mundo sem esperança, alegria, paciência, sabedoria (Gl. 5:22-23; Tg. 1:2-8). Para tanto, é muito importante orar e vigiar. São duas coisas que precisam andar juntas na vida do crente. Elas precisam acontecer em todo o tempo, com perseverança, para que possamos estar em pé na presença do Senhor Jesus no dia de sua volta (Lc. 21:36; Ef. 6:18). Tenhamos cuidado de orar e vigiar a cada dia como se fosse o último.

5. Ninguém sabe (Mc. 13:32; Mt. 24:36).

“Mas, daquele Dia e hora, ninguém sabe, nem os anjos que estão no céu, nem mesmo o Filho, senão o Pai” (Mc. 13:32).

 

Nem Jesus, o Filho de Deus Pai, sabe, nem os anjos dos céus. Os crentes do primeiro século viviam como nós ainda vivemos, ávidos para saber quando Jesus voltará. Mas ele não fixou o tempo de sua volta, não tinha como fazê-lo. Não sabia, só o Pai sabe.

O apóstolo Pedro, de certa forma, procura consolar os cristãos sobre esse assunto, a promessa da volta de Jesus, e ele, o apóstolo Pedro, o faz de maneira muito semelhante aos termos usados por Jesus em seu sermão escatológico registrado por Mateus, Marcos e Lucas (Mt. 24; Mc. 13 e Lc. 21). Em certo sentido, esse tema abortado pelos escritores dos Evangelhos, tem o mesmo propósito do apóstolo Pedro em sua carta, ou seja, consolar e ensinar os crentes que viviam ansiosos aguardando a volta de Jesus, sem compreenderem muito bem a Sua demora.

Eis o que o apóstolo Pedro escreveu em sua Segunda Carta 3:3-11

“Sabendo primeiro isto: que nos últimos dias virão escarnecedores, andando segundo as suas próprias concupiscências”

“E dizendo: Onde está a promessa da sua vinda? Porque desde que os pais dormiram todas as coisas permanecem como desde o princípio da criação”.

“Eles voluntariamente ignoram isto: que pela palavra de Deus já desde a antiguidade existiram os céus e a terra, que foi tirada da água e no meio da água subsiste”;

“Pelas quais coisas pereceu o mundo de então, coberto com as águas do dilúvio”.

“Mas os céus e a terra que agora existem pela mesma palavra se reservam como tesouro e se guardam para o fogo, até o Dia do Juízo e da perdição dos homens ímpios”.

“Mas, amados, não ignoreis uma coisa: que um dia para o Senhor é como mil anos, e mil anos, como um dia”.

“O Senhor não retarda a sua promessa, ainda que alguns a têm por tardia; mas é paciente para convosco, não querendo que alguns se percam, senão que todos venham a arrepender-se”.

“Mas o Dia do Senhor virá como o ladrão de noite, no qual os céus passarão com grande estrondo, e os elementos, ardendo, se desfarão, e a terra e as obras que nela há se queimarão”.

“Havendo, pois, de perecer todas estas coisas, que pessoas vos convém ser em santo trato e piedade” (II Pd. 3:3-11).

As expectativas excessivamente ansiosas dos crentes que desejavam (e desejam uma volta de Jesus em seus dias), geravam (e geram) a inevitável dúvida quanto a certeza dessa volta de Jesus, e, por parte de outros não crentes até mesmo o desprezo e as zombarias.

Daí a importância de deixar claro que Jesus Cristo, o Filho do Homem, não tinha definitivamente fixado o tempo de Seu aparecimento, de Sua volta.

Há muitos que ficam perplexos e confusos com a afirmação de Jesus: “Nem os anjos dos céus, nem mesmo o Filho sabe a respeito daquele dia e hora, senão o Pai” (Mt. 24:36, 37; Mc. 13:32).

Podemos e precisamos fazer a reconciliação dessa limitação de Jesus Cristo com o ensino do Novo Testamento de que Ele também era Deus.

O Novo Testamento ensina que Jesus era o verbo de Deus, que estava com Deus e era Deus, que se fez carne e habitou entre nós (Jo. 1:1, 14). Nele, em Jesus, habitava toda a plenitude de Deus (Cl. 1:19; 2:9).

Porém, o Novo Testamento também ensina que Jesus, como Deus entre os homens, se esvaziou (Fp. 2:7). Isto significa que Ele assumiu livremente e por amor limitações obrigatórias incidentes à natureza do homem, mesmo quando não contaminado pelo mal e em plena comunhão, por meio do Espírito Eterno, com o Pai.

Esta limitação do Filho nunca foi ocultada, mas livre e alegremente aceita e revelada. Ele veio nos ensinar submissão a vontade do Pai (Mt. 20:23; Lc. 22:42).

6. Como foi nos dias de Noé (Mt. 24:37-39; Lc. 17:26-27; Hb. 11:7; I Pd. 3:20; II Pd. 2:5; 3:6-8).

“E, como foi nos dias de Noé, assim será também a vinda do Filho do Homem” (Mt. 24:37).

A ideia da ignorância daquele dia e hora da volta de Jesus, encontra-se, de certa forma, presente na declaração, na comparação que Jesus estabelece: como foi nos de Noé será naquele dia, como foi no dilúvio será na volta de Jesus Cristo. O modo de vida das pessoas era sem preocupação alguma com uma catástrofe iminente, um julgamento implacável. Tudo isso está em harmonia como ensino da Parábola sobre o servo bom e fiel e o servo mau e infiel. O Senhor do servo virá em dia e hora em que ele não sabe (Mt. 24:50; Lc. 12:43-46).

Ao citar o exemplo das pessoas nos dias de Noé, o Senhor adverte a todos de seus dias e nós também ainda hoje. Os antediluvianos tiveram oportunidade de arrependimento e fé no Senhor que é gracioso, mas eles não deram ouvido. O Evangelista Lucas usa essa palavra de Jesus em outro contexto, isso testemunha a favor da veracidade da origem da palavra dos lábios de Jesus. Caso tivéssemos tudo arranjado, colocado tudo do mesmo jeito por diferentes escritores bíblicos, no mesmo contexto, poderíamos, então, duvidar da honestidade e veracidade da narrativa.

O dilúvio dos dias de Noé é usado como uma ilustração em diferentes textos do Novo Testamento como um tipo do último dia, da volta de Cristo, que virá, infelizmente sobre muitos incrédulos e descuidados.

7. Um será tomado, outro deixado (Mt. 24:40, 41; Lc. 17:30-36)

Então, estando dois no campo, será levado um, e deixado o outro (Mt. 24:40).

Discutir se a pessoa que é levada é recebida na comunhão com Cristo, enquanto a outra que é deixada sofre a tribulação ou julgamento, é algo de infindável debate e pouco acrescenta.

Vejam bem, na parábola do joio e do trigo. O joio é recolhido primeiro para o juízo, o fogo (Mt. 13:24-30). Além disso, nos tempos bíblicos, quando um exército hostil e poderoso conquistava uma cidade, os habitantes que eram levados pelo exército inimigo, essas eram prisioneiras ou escravas; mas os habitantes da cidade que eram deixados, viviam livres.

Há textos que ensinam sobre os anjos do Senhor fazendo a colheita de seus servos fieis (Mt. 24:31; Jo. 14:3; I Ts. 4:17; II Ts. 1:7-9).

Porém, há lições que podem ser extraídas do texto bíblico e são verdadeiras e úteis para todos nós independente da classificação de quem são os levados e quem os deixados.

A primeira coisa que concluímos neste texto é que o dia do julgamento será um dia de separação. Pessoas em casa, no trabalho, nos templos, nos meios de transporte, etc, serão separadas no meio de atividades comuns do dia a dia.

A segunda lição que este texto ensina diz respeito a colheita do Senhor. O Senhor reunirá os seus escolhidos de todas as extremidades da terra, esses ficarão para sempre com o Senhor (Mt. 24:31; Jo. 14:3; I Ts. 4:17; II Ts. 1:7-9).

 

Conclusão:

Marcos 13 tem três perguntas: 1. Quando será a destruição do templo? 2. Quando será a volta de Jesus? 3. Quando será o fim do mundo? As respostas de Jesus, em resumo, são: Ninguém sabe o dia e a hora, mas vocês precisam estar preparados, pois pode ser a qualquer momento (Mc. 13:33-37; Mt. 24:36). Sabemos que a destruição do templo de Jerusalém aconteceu no ano 70 d.C, através de Tito. Contudo, a volta de Jesus e o fim do mundo, aguardamos com oração e fé.

Lembremos da história da mulher grávida que Jesus contou. Ela fica triste porque chegou a sua hora de sofrer. Mas, depois que a criança nasce, ela fica tão alegre, que nem lembra mais do seu sofrimento. Assim acontecerá também conosco. Quando Jesus voltar ficaremos cheios de alegria, e ninguém poderá tirar essa alegria de nós (Jo. 16:20-22).

As perseguições sofridas pela Igreja Primitiva à luz do Novo Testamento servem de alerta para nós, pois o mesmo que Jesus ensinou para ela, se aplica ainda hoje.

Os seguidores de Cristo compartilham com ele das mesmas perseguições, sofrimento, missão, e morte, não apenas da glória da ressurreição e da vida eterna (Mc. 8:34-35; 9:30-32; 10:29-34; 10:42-45).

Habitaremos com Ele em um novo céu e uma nova terra (Ap. 21:1). Vamos, pois, continuar servindo-o com fé e amor. Estejamos prontos. Ele é a nossa alegria e esperança. Vigiem e orem!

Perguntas para sua reflexão e/ou debate

1. O que fazer para que o templo, a liturgia dos cultos e o calendário religioso de nossa Igreja não tomem o lugar de nosso relacionamento pessoal com Deus?

2. Por que algumas pessoas são seduzidas por falsas doutrinas e falsos líderes?

3. Como fazer para ter profundidade na Bíblia, na oração e na vigilância?

4. Precisamos mostrar ao mundo que não servimos a Deus em troca de bênçãos materiais. Como isso é possível em tempo de sofrimento?