Algumas breves anotações sobre os livros de Esdras e Neemias na Bíblia

Data publicação 26/11/2025

Algumas breves anotações sobre os livros de Esdras e Neemias na Bíblia

Pastor Washington Roberto Nascimento

1. Os livros de Esdras e Neemias são contados como um livro na Bíblia Hebraica: - תַּנַךְ‎ - (Lê-se thanarr) –

2. Os livros de Esdras e Neemias encontram-se na terceira e última parte do cânon hebraico conhecido como: Escritos ou Escrituras – כְּתוּבִים  - (Lê-se Ketuvim) –

3. A terceira parte do cânon hebraico vem do nome da Bíblia Hebraica - תַּנַךְ‎ - (Lê-se thanarr), que é um acrônimo, pois cada uma das três consoantes representa uma parte da Bíblia dos Judeus, e juntas formam uma palavra.

4. A primeira letra da palavra - תַּנַךְ‎ - chama-se Tav, ת‎, e aponta para a primeira parte do Canon hebraico conhecida com a Lei (que diz respeito ao Pentateuco) – תּוֹרָה - (Lê-se Torah).

A segunda letra da palavra - תַּנַךְ‎ - chama-se Nun, נ‎, e aponta para a segunda parte do Canon hebraico conhecida como Profetas  נְבִיאִים   –  (Lê-se Neviim).

A terceira letra da palavra - תַּנַךְ‎  - é - כ - chama-se caf - ך  - caf final, isto é, quando se encontra no final da palavra tem esta forma/grafia, e aponta para a terceira parte do Canon Hebraico conhecida como Escritos (ou as Escrituras) – כְּתוּבִים  - (Lê-se Ketuvim).

5. Não devemos confundir acróstico com acrónimo. O acróstico é uma forma de expressão criativa na qual as letras iniciais de cada linha, verso ou parágrafo são destacadas formando uma palavra, nome, frase ou parágrafo. O objetivo do acróstico é fazer uma composição inventiva para transmitir uma mensagem. O Salmo 119 é um acróstico. Nele temos as 22 letras do Alfabeto Hebraico e há 22 parágrafos. Cada parágrafo começa com uma letra do Alfabeto Hebraico. O certo seria termos 22 versículos no Salmo 119.

6. Os livros de Esdras e Neemias contam a história do segundo êxodo do povo de Israel no Antigo Testamento. O primeiro Êxodo foi a volta do Egito para a terra da promessa feita a Abraão. O segundo êxodo foi a volta da Babilônia para a terra da promessa, mais especificamente, para a cidade de Jerusalém.

7. O Reino do Norte foi destruído pelo Império Assírio por volta de 722 a.C. (II Rs. 17) e o Reino do Sul foi destruído pelo Império Babilônio. Os judeus foram levados para a Babilónio em três momentos distintos:

7.1. Por volta de 606 a.C. (Dn. 1:1-4; II Rs. 24:15; II Cr. 36:5-7; Jr. 25:8-11; etc.);

7.2. Por volta de 597 a.C. (II Rs. 24:10-17; II Cr. 36:9-10);

7.. Por volta de 586 a.C. (II Rs. 25:1-10; II Cr. 36:13-21).

8. O segundo êxodo, a volta da Babilônia para a terra prometida, teve três momentos:

8.1. A volta com Zorobabel para a edificação do templo (Ed. 2:2; Ag. 1:1; Zc. 4:6);

8.2. A volta com Esdras para a edificação espiritual (Ed. 7:1);

8.3. A volta com Neemias para a edificação dos muros (Ne. 1:1-2:17).

9. Os anti-clímaxes

Os anti-clímaxes nos livros de Esdras e Neemias são os resultados decepcionantes do que deveriam ter sido momentos triunfantes, como a reconstrução do templo, que carecia da glória divina da época de Salomão, e a luta espiritual com os casamentos mistos, que levou a dolorosos divórcios em massa. Esses eventos destacam a discrepância entre as expectativas proféticas e a realidade do retorno dos exilados, forçando uma reavaliação de seu estado espiritual.

Esdras

Reconstrução do templo: Após a conclusão do segundo templo, os anciãos que haviam visto o primeiro choram porque a glória de Deus não se manifesta como na dedicação do templo de Salomão.

Lidando com os casamentos mistos: A descoberta emocional de Esdras sobre a disseminação dos casamentos mistos com não israelitas leva a um decreto de divórcio em massa, uma solução dolorosa e incompleta que não atende plenamente às necessidades espirituais do povo.

Neemias

O final do livro: O livro termina abruptamente com as palavras finais de Neemias sendo uma oração a Deus para que se lembre dele, não por um triunfo completo. Isso contrasta fortemente com o tom triunfante que começou com a esperança da restauração dos muros da cidade.

As questões espirituais persistentes: Apesar da reconstrução bem-sucedida dos muros e do templo, as reformas de Neemias não mudam completamente o coração do povo, e o livro termina mostrando as mesmas lutas espirituais que o povo enfrentou antes do exílio, ao longo do período dos juízes e dos reis.

No cerne das promessas e profecias, o que temos como alvo final é a restauração do relacionamento com Deus.  Os líderes israelitas com as demais pessoas que retornam do exílio recuperam a terra, reconstroem o templo e o muro, mas falham no ministério da reconciliação do povo com Deus.

O povo está dividido. Parece haver uma briga pelo poder enquanto constroem o templo e os murros. Um grupo que já estava na terra, que no Novo Testamento é conhecido como samaritanos, oferece ajuda aos que haviam voltado da Babilônia: Queremos construir o templo junto com vocês. Porém, os líderes que voltaram do exílio responderam: Não precisamos que vocês nos ajudem (Ed. 4:2-3).

As reações entre as gerações que trabalham na reconstrução são antagônicas. Os anciãos choram alto ao verem o início da obra, mas os jovens gritam de alegria (Ed. 3:12).

Os israelitas que não foram deportados e que habitavam na terra, possivelmente os que conhecemos no Novo Testamento como samaritanos, resultado de uma política de miscigenação do Império Assírio, são vistos e apresentados aos leitores e ouvintes, pelo escritor, como inimigos das tribos de Judá e Benjamim, mas a princípio eles queriam apenas ajudar, de acordo com o próprio texto bíblico. Parece que a rivalidade entre Reino do Sul e Reino do Norte ainda permanecia (I Rs. 12; Ed. 4:1-3; Jo. 4:1-42; etc.).

Sob o governo de Esdras, um decreto é promulgado, resultando em uma onda de divórcios – dividindo famílias (Ed. 10:1-44). As esposas e os filhos dos israelitas são mandados embora de maneira triste. Que anticlímax no encerramento do livro de Esdras! Que cena triste! Em Malaquias 2:13-16, aprendemos que Deus não tem prazer no divórcio e quer que seus servos sejam maridos fieis e pais exemplares.

Neemias tem homens armados para impedir que os israelitas sejam atacados por seus vizinhos durante a obra de reconstrução dos muros (Ne. 4:13,16,17,18).

No último capítulo do livro de Neemias nós vemos os líderes da reconstrução fazendo o que consideravam necessário para a restauração espiritual: eles expulsaram os estrangeiros do meio deles (Ne. 13:3); ele mesmo, Neemias, expulsou Tobias do templo. Ele, Neemias, jogou fora os móveis de Tobias que estavam em um cômodo no templo. Tobias era considerado inimigo de Neemias, mas que era amigo e parente do sacerdote do templo, Eliasibe (Ne. 13:4-9; 6:1). O povo não sustentava o culto com seus dízimos e ofertas (Ed. 13:10) e nem guardavam o sábado (Ne. 13:15-17).

O que temos no final do livro de Neemias e no final do trabalho de Esdras e Zorobabel é um anticlímax. Não temos a resolução dos problemas mais sérios. O final da história não tem ápice empolgante, triunfante, alegre.

Eles têm seu povo e sua terra, mas romperam seus relacionamentos com o próximo, com as outras pessoas e com Deus. Através dos profetas, Deus declara que quebrará os corações endurecidos de seu povo e lhes dará novos corações (Jr. 31:31-33; Ez. 36:26-28). Ele promete salvá-los de seus próprios pecados por meio de seu Messias, o Servo Sofredor (Is. 53), restaurando seu relacionamento rompido com Deus.

O final de Esdras e Neemias nos deixa com a seguinte pergunta: Quando teremos o clímax dessa história do povo Senhor? Quando teremos a solução de todos esses problemas que parecem não ter fim? Quando e como o ápice dessa história?

Esdras e Neemias nos fazem querer ler o Novo Testamento. É nele, no Novo Testamento que encontramos Jesus, o verdadeiro cumprimento de todas as promessas de Deus (II Co. 1:20), que com seus ensinos, vida, morte e ressurreição resolveu os problemas do nosso relacionamento com Deus e com o próximo, de nossa xenofobia, e de nossa hermenêutica literal do texto, que não alcança o espírito da letra, e que por isso não cura, mas fere; não salva, mas julga e condena.

Esdras e Neemias nos ensinam o quanto precisamos do Novo Testamento, de Jesus Cristo, o verdadeiro e inigualável sacerdote, mestre e Salvador que perdoa os nossos pecados e nos dá traz paz e alegria que o mundo não conhece.

Pastor Washington Roberto Nascimento