Deixa meu povo ir para que me sirva

Data publicação 13/04/2023

 

Deixa meu povo ir para que me sirva

Pastor Washington Roberto Nascimento

“E lhe dirás: O Senhor Deus dos hebreus me tem enviado a ti, dizendo: Deixa ir o meu povo, para que me sirva no deserto; porém eis que até agora não dez ouvido” (Êx. 7:16).

Uma das frases mais conhecidas no livro do Êxodo é: “Deixe meu povo ir” tem sido o bordão da história do Êxodo por muito tempo.

Essa frase fala de um drama - o pequeno Moisés enfrentando o grande Faraó. Ela é impactante, pois tem um forte imperativo: deixa meu povo ir! E tem brevidade - é clara, objetiva. Direto ao ponto.

Como é importante a frase toda e não apenas a primeira parte! Moisés nunca disse apenas: “Deixe meu povo ir”. Mas ele disse a Faraó: “O Senhor, o Deus dos hebreus, enviou-me a ti para dizer: ‘Deixa ir o meu povo para que me adore no deserto’” (Êxodo 7:16).

Deus disse a Faraó para enviar, mandar o povo para o servi-lo no deserto. O verbo hebraico é: - שָׁלַח (lê-se: shalar), que significa: enviar, mandar.

Outro verbo importante nesse texto é - עָבַד (lê-se: `avad), que significa: servir, trabalhar.

Merece destaque, também, no texto bíblico, os sufixos pronominais da primeira pessoa do singular:

O meu povo - עַמִּי – (lê:se: ami). O povo pertence a Deus. Somos do Senhor. Dele é a terra e a sua plenitude, o mundo e aqueles que nele habitam (Sl. 24:1). Ninguém vive para si (Rm. 14:7). A ideia é que encontramos razão para viver com Deus e com o próximo.

E ele trabalhará para mim - וְיַֽעַבְדֻנִי – (lê-se: vey´aveduni). Ele me servirá. Ele seguirá as minhas ordens, as minhas leis, os meus conselhos.

O povo de Deus atravessou o Mar Vermelho. Você atravessou, milagrosamente, um mar agitado e chegou à terra firme. Cercado por sons de júbilo, tambores, cantos e danças, você está livre. Mas, e agora? Onde você vai? O que você faz? O que significa ser livre? No deserto, no mundo, temos os perigos. Há coisas desconhecidas, há pessoas desconhecidas. Nem eu mesmo me conheço muito bem. Posso fazer mal aos outros e a mim. Posso cair em um buraco. Preciso de ajuda, de proteção, de orientação no deserto, no mundo.

Há pessoas, tolas, que não gostam de regras, disciplina. Há pessoas que pensam que a vida seria divertida sem regras, leis, normas, disciplinas.  Mas a verdade é que um dia sem leis, sem regras, seria um desastre no lar, na igreja, na escola, no trabalho, no trânsito, no mundo. isso com um dia livre de regras na escola.

As leis de Deus nos ensinam a importância de respeitar os direitos dos outros, de ajudar os outros em suas necessidades, pois temos necessidades dos outros também. Só o tolo pensa não ter necessidade dos outros ou pensa que não terá.   

As crianças, no lar, na escola, na igreja, precisam aprender revezar nos brinquedos, no banheiro, no bebedouro, etc. Elas precisam aprender a dividir lanche, a deixar outra pessoa falar, a guardar as coisas que usam, etc.

As leis de Deus existem para nos ajudar, nos proteger, no guiar, contribuir relacionamentos saudáveis, um mundo feliz.

Precisamos aprender tratar os outros como gostaríamos de ser tratados. Jesus disse que devemos fazer aos outros o que queremos que os outros façam a nós. Ele disse que é exatamente isso que a lei de Moisés e os ensinos dos profetas querem dizer (Mt. 7:12).

Quando as tábuas dos Dez Mandamentos são dadas, elas são as primeiras regras que encontramos no deserto, os primeiros limites dentro dessa nova liberdade. A Torá nos diz que as tábuas foram obra de Deus. Mais especificamente, o texto quer que imaginemos que “a escrita era a escrita de Deus, gravada nas tábuas” (Êx. 32:16). A ideia é que, a leis eram tão sábias, que foram aceitas pelos crentes como obra de Deus.

Em um jogo de palavras, podemos ao invés de lermos: gravado - חָרוּת (lê-se: raruth), lermos: liberdade - חֵרוּת (lê-se: reruth). A liberdade de Deus está gravada nas tábuas, encontra-se em Seus ensinos. E o que é a liberdade de Deus? Que ninguém é verdadeiramente livre, exceto aquele que está ocupado com o estudo da Palavra de Deus, de Seus ensinos.

Aquele que se ocupa com a Palavra de Deus, se ocupa do próprio Deus que se encontra revelado em Sua Palavra. Ele é ama a Deus, a Sua Palavra e ama, também, a humanidade. Aquele que aprende e pratica os ensinos da Palavra de Deus alegra a Deus e alegra a humanidade. Os ensinos da Palavra de Deus vestem a pessoa com humildade e reverência, e o equipa para ser justo, piedoso, reto e confiável; mantém-no longe do pecado e aproxima-o da estatura de Cristo Jesus. E as pessoas se beneficiam de seu conselho, conhecimento, compreensão e força. Tudo isso por causa da sabedoria que nele habita e que procede de Deus (Pv. 8:14).

Aquele que tem a Palavra, tem Cristo Jesus, que é a Palavra que um dia tabernaculou entre nós. O Espírito de Cristo, que inspirou a Palavra, é como uma fonte de água viva que flui dentro de nós, renova o novo amor, conhecimento, graça e paz (Jo. 5:37-39).

A liberdade do Senhor para o seu povo não é libertinagem. Não é um tipo de lugar selvagem, sem limites, faça o que quiser.

A Palavra do Senhor diz: Deixe meu povo ir para que eles possam me servir. Servir a Deus é viver os ideais mais elevados dEle para nós e para a humanidade. Tem a ver com a visão profética. Servir a Deus é servir o próximo, a humanidade. Não tem nada a ver com uma vida egoística.

A salvação de Deus - a páscoa - precisa ser celebrada. Ele nos libertou da escravidão, de um mundo de exploração, de aviltamento, de trevas.  Agora, tudo se fez novo, temos a nossa liberdade, e a Luz de Deus, a Sua Palavra, para nos guiar nesse novo tempo, no deserto. Vamos construir uma nova terra, um novo homem, uma nova humanidade.

Se levarmos a sério Êxodo 7:16, vamos compreender, então, que fomos libertados para servir a Deus. Precisamos considerar seriamente como servi-lo.  Servir a Deus significa, entre outras coisas, alinhar nossas escolhas e comportamento com a misericórdia e a verdade, a justiça e paz (Sl. 85:10), submetendo livremente nossos próprios desejos a um bem maior.

Cristo nos libertou. Ele, o nosso mestre, nos ensina que liberdade significa escolher livremente o compromisso e as obrigações que trazem à tona a nossa humanidade e, consequentemente, a humanidade do nosso próximo.

Precisamos nos perguntar quais são as obrigações que cada um de nós deve assumir que trazem à tona nossa humanidade e dão sentido à nossa vida?

Caminhemos de mãos dadas na estrada da liberdade – Cristo Jesus. Ao longo do caminho mostraremos a beleza de uma liberdade com justiça, fé e esperança a serviço de algo maior do que nós mesmos.