Livre arbítrio, determinismo e compatibilismo
Pastor Washington Roberto Nascimento
Introdução
O discurso teológico e filosófico sobre o problema do livre-arbítrio tem sido moldado por três opções básicas: libertarianismo (aceitar o livre-arbítrio e a incompatibilidade, mas negar o determinismo), determinismo radical (aceitar o determinismo e a incompatibilidade, mas negar o livre-arbítrio) e compatibilismo (aceitar o determinismo e o livre-arbítrio, mas negar a incompatibilidade).
1. O livre-arbítrio
O livre-arbítrio ensina que o ser humano tem condições de fazer escolhas baseadas na sua própria vontade, sem determinações externas absolutas e por isso tem responsabilidade moral por suas escolhas, decisões, palavras e ações.
Se não houvesse livre-arbítrio, o ser humano não teria responsabilidade sobre suas ações, invalidando a dignidade ética.
O livre-arbítrio é ensinado na Bíblia como um dom divino, permitindo que os seres humanos escolham adorar ou seguir a Deus, obedecê-lo ou desobedece-lo, faze o bem ou o mal. O livre agir do ser humano, sua liberdade de escolhas é um tema central da Bíblia como podemos verificar em vários textos.
Deuteronômio 30:19.
"Hoje invoco os céus e a terra como testemunhas contra vocês, de que coloquei diante de vocês a vida e a morte, a bênção e a maldição. Agora escolham a vida, para que vocês e os seus filhos vivam".
Josué 24:15.
"Se, porém, não lhes agrada servir ao Senhor, escolham hoje a quem irão servir, se aos deuses que os seus antepassados serviram além do Eufrates, ou aos deuses dos amorreus, em cuja terra vocês estão vivendo. Mas, eu e a minha família serviremos ao Senhor".
Apocalipse 3:20.
"Eis que estou à porta e bato. Se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei e cearei com ele, e ele comigo".
Caso não fossemos livres para fazer as nossas escolhas, então não poderíamos ser considerados responsáveis por elas. Não haveria louvor, aprovação pela escolha certa, e nem condenação pela escolha errada.
Não há como negar os limites do livre-arbítrio. A vida nos ensina que o livre-arbítrio não é uma liberdade ilimitada; ele funciona dentro das limitações humanas, condicionado pelo meio e influências. Não somos livres para escolher os nossos pais, nem o lugar que nascemos, nem quando nascemos, nem o nosso sexo.
2. O determinismo
O determinismo ensina que todos os eventos, incluindo ações humanas, são consequências necessárias de causas anteriores, tais como a genética, o ambiente social, cultural, educacional, leis da natureza. E que o futuro é pré-determinado, tornando o livre-arbítrio uma ilusão.
Há, também, o determinismo teológico que ensina que Deus (ou uma força divina) determina todos os eventos da história, humanos também, individuais e coletivos.
Veja, abaixo, alguns textos bíblicos usados para sustentar o determinismo teológico.
Jó 14:5.
"Os dias do homem estão determinados; tu decretaste o número de seus meses e estabeleceste limites que ele não pode ultrapassar".
Isaías 46:10,11.
"Desde o início faço conhecido o fim, desde tempos remotos, o que ainda virá. Digo: Meu propósito ficará de pé, e farei tudo o que me agrada".
“Do oriente convoco uma ave de rapina; de uma terra bem distante, um homem para cumprir o meu propósito. O que eu disse, isso eu farei acontecer; o que planejei, isso farei".
Romanos 9:16-18.
"Portanto, isso não depende do desejo ou do esforço humano, mas da misericórdia de Deus".
"Pois a Escritura diz ao faraó: Eu o levantei exatamente com este propósito: mostrar em você o meu poder, e para que o meu nome seja proclamado em toda a terra".
"Portanto, Deus tem misericórdia de quem ele quer, e endurece a quem ele quer".
Romanos 9:16-18
O determinismo opõe-se diretamente à noção de livre arbítrio. Se o futuro já está traçado por causas passadas ou por uma força ou vontade de Deus ou de uma força superior, transcendente, o ser humano não teria liberdade genuína para escolher suas ações.
3. O compatibilismo
O compatibilismo ensina que há um alinhamento entre livre arbítrio e determinismo. De acordo com o compatibilismos o livre-arbítrio significa agir segundo a própria vontade (autonomia), mas não com capacidade de agir independentemente de causas hereditárias, sociais, culturais, etc.
O compatibilismo ensina que mesmo que nossas ações sejam de alguma forma e em certo grau determinadas, isto não significa que não sejamos responsáveis por elas. O compartibilismo ensina que as escolhas derivam do caráter da pessoa e não de coação externa.
Há pessoas que dizem que livre-arbítrio e determinismo são mutuamente excludentes. Esses são conhecidos como incompatibilismo. O compatibilismo busca conciliar ambos: livre-arbítrio e determinismo.
Historicamente os filósofos como Thomas Hobbes, John Locke e David Hume são reconhecidos como defensores do compatibilismo.
Veja, abaixo, alguns textos bíblicos que são usados como base para defender o compatibilismo.
Gênesis 50:20.
"Vocês planejaram o mal contra mim, mas Deus o transformou em bem, para que se cumprisse o que hoje se vê: a preservação da vida de muita gente."
Compatibilismo: Os irmãos de José agiram livremente em suas más intenções, mas Deus, em sua soberania, usou suas ações para um propósito bom e predeterminado. Porque a vontade final e soberana de Deus prevalece e não a vontade perversa do ser humano. Deus não é vítima da maldade dos homens.
Lucas 22:22.
Compatibilismo: "O Filho do homem vai, como foi determinado; mas ai daquele que o trai! "
Judas foi o responsável porque escolheu, decidiu livremente trair Jesus. Isto aponta para o livre-arbítrio. Mas o ato de Judas trair Jesus já estava premeditado por Deus.
A predeterminação divina encontra-se baseada na sua presciência que é o conhecimento antecipado de fatos ou eventos antes que eles ocorram. É a capacidade de saber/conhecer/prever o futuro, o que tem íntima relação com à onisciência de Deus.
Deus sabe o que falaremos antes de concluirmos a nossa fala (Sl. 139:4). Mas isto não significa que nós não podemos ter o controle sobre o que falamos ou não falamos.
Atos 2:23
"Este Jesus, entregue segundo o plano predeterminado e a presciência de Deus, vós o crucificastes e matastes por mãos de homens ímpios".
Compatibilismo: A crucificação foi determinada por Deus (Determinismo), mas executada livre e culposamente por seres humanos - "vocês... mataram por... mãos ímpias" – (Livre-arbítrio).
Conclusão
O livre-arbítrio ensina que os indivíduos são os autores finais de suas ações, escolhendo livremente o que querem. O determinismo ensina que todos os eventos, incluindo as decisões humanas, são determinados por causas anteriores ou pelas leis da natureza ou a vontade soberana de Deus. O compatibilismo, frequentemente considerado um meio-termo, resolve esse conflito ao redefinir o livre-arbítrio não como independência da causalidade, mas como a capacidade de agir de acordo com os próprios desejos, motivações e valores éticos, sem coerção externa. Assim, o compatibilismo sugere, de forma harmoniosa, que, embora nossos desejos possam ser determinados, ainda somos livres e moralmente responsáveis se nossas ações derivarem de motivações internas, e não de força externa.
Em síntese, cremos no peso da livre escolha, mas cremos, também, na promessa da Graça do Deus Soberano, que é Pai de infinita bondade e sabedoria, cuja face Jesus revelou.
Nos momentos de reflexão e tomada de decisão, muitas vezes sentimos o imenso peso da nossa própria responsabilidade. Olhamos para as nossas vidas e percebemos que somos verdadeiramente os autores das nossas escolhas — que se tivéssemos escolhido de forma diferente, o futuro seria diferente. Culpar os outros – seja Deus ou os nossos pais – não é o caminho da solução, da cura, da transformação.
Nossas escolhas importam. Elas não são meramente ações pré-programadas; elas têm peso moral. Quando você escolhe demonstrar bondade, esta escolha é real. Quando você age com violência verbal ou física contra alguém mais fraco, você peca contra Deus e o próximo. Essa é decisão/escolha é real, e você é responsável por ela.
No entanto, a beleza do Evangelho reside no fato de que, embora sejamos responsáveis, não estamos abandonados pelo nosso criador. Não estamos sozinhos. O mesmo Deus que nos concede a liberdade de escolha é aquele que nos capacita para ouvir sua voz, se arrepender e voltar para ele. E isso só não acontecerá caso realmente essa seja a nossa escolha pessoal, interior e livre.
Não precisamos carregar o fardo de sermos nossa própria salvação. Somos incapazes de operá-la de maneira plenamente. Precisamos do perdão de Jesus para vivermos, pois, infelizmente, nem sempre teremos o perdão dos outros aqui na terra.
Deus não nos criou robôs. Ele nos criou capazes de escolher o amor ao invés do indiferentismo; o altruísmo ao invés do egoísmo; a luz ao invés das trevas; o perdão ao invés da vingança.
Pastor Washington Roberto Nascimento
Sugestões bibliográficas
HARRIS, Sam. Free Will. Editora Free Press. 1ª edição 2012. 83p.
GEISLER, Normam. L. Chosen but Free. Editora Bethany House Publishers. 2010. 352p.
EDWARDS, Jonathan. Freedom of the will. Editora Lulu Press, Inc. 2019. 178p.
BERNSTEIN, Andrew. A Challenge to Determinism: The Rational Case for Human Free. Editora Loco-Foco Press. 2026. 118p.
FURLON, Peter. The challenges of Divine Determinism: A Philosophical Analysis. Editora Cambridge University Press. 2019. 246p.