Notas gerais sobre o livro de Jó
Pastor Washington Roberto Nascimento
1. Algumas considerações sobre o livro de Jó e sua teologia.
1.1. O livro de Jó é uma das obras-primas da literatura sapiencial (e poética) do Antigo Testamento, abordando dilemas humanos profundos.
1.2. Neste livro temos a quebra da Teologia da Retribuição Estrita: O livro desafia a ideia defendida pelos amigos de Jó e por muitos de maneira explicita ou velada, ainda hoje, de que todo sofrimento é resultado direto de um pecado e toda prosperidade é fruto da justiça. Jó é apresentado como um homem íntegro que sofre mesmo sendo inocente.
Você crê, defende e prega a teologia da retribuição estrita? Ela não se sustenta no ensino geral e amplo das Escrituras (Jo. 9:1-3; etc.).
A teologia da retribuição estrita é a ideia de que o ser humano recebe de Deus exatamente conforme suas ações: quem faz o bem é recompensado com bênçãos, e quem faz o mal sofre punições. Essa visão, muito presente em textos do Antigo Testamento e na cabeça de muita gente, entende a relação entre conduta e destino como direta e automática, sem espaço para exceções ou mistério. A palavra estrita significa: rigorosa, severa, sem concessões.
1.3. A Soberania, a Onipotência e Transcendência de Deus: Diante dos questionamentos de Jó, Deus não explica os motivos do sofrimento, mas revela Sua grandeza, sabedoria e o controle absoluto sobre a criação (Jó capítulos 38:1,4,12,etc. 39:26,27, etc. 40:1,2, etc. 41:1-9, etc. etc.).
No final do seu livro, Jó disse o seguinte para Deus e sobre Deus:
“Eu reconheço/sei - דַּעַת – (lê-se: daat – conhecer - vem do verbo - יָדַע - lê-se: yada – saber) que para Ti nada é impossível e que nenhum dos Teus planos pode ser impedido” (Jó 42:2).
A resposta ao sofrimento não é uma explicação lógica, mas a confiança no caráter de Deus.
1.4. A Fé Desinteressada: O grande teste do livro (proposto no tribunal celestial) é se o ser humano é capaz de amar e servir a Deus por Quem Ele é, e não apenas pelas bênçãos e proteções que Ele concede (Jó 1:8-12; Jó 1:20-22; 2:1-11).
Temer a Deus - יָרֵא – (lê-se: yareh – ocorre 331 vezes na Bíblia Hebraica e 9 vezes no livro de Jó) - חִנָּם -) הַחִנָּם יָרֵא אִיּוֹב אֱלֹהִֽים- lê-se: rinam) - (é) de graça que teme Jó a Deus?
Amor do temer ou o temer que nasce do amor? É triste amar alguém porque a teme. Mas temer alguém porque se ama é diferente. Explicação: Temer magoar alguém, falhar com (contra) alguém, ferir alguém, porque se ama.
1.5. A Necessidade de um Mediador (Jó 19:25): Em meio à sua dor, Jó reconhece a enorme distância entre a santidade de Deus e a fragilidade humana, clamando por alguém que possa mediar essa relação.
2. Algumas considerações sobre o livro de Jó e suas conexões com a pessoa e obra de Jesus Cristo.
2.1. O sofrimento Jó aponta para o sofrimento de Jesus: Sofreu intensamente, perdendo filhos, bens e saúde, mesmo sendo descrito por Deus como "bom e honesto" (Jó 1:8).
“Aí o Senhor disse: Você notou o meu servo Jó? No mundo inteiro não há ninguém tão bom e honesto como ele. Ele me teme e procura não fazer nada que seja errado” (Jó 1:8).
Jesus: É o único verdadeiramente inocente e sem pecado que sofreu a mais dolorosa das mortes. O sofrimento de Jó prefigura o sofrimento de Cristo, com a diferença de que o sacrifício de Jesus teve um propósito redentor por toda a humanidade.
2.2. O Clamor pelo Mediador - מוֺכִיחַ - (lê-se: morria – juiz, mediador, advogado, protetor). Vem da raiz - יָכַח - (lê-se: yarrar) que significa: decidir, inocentar, advogar, julgar. Em Jó 9:33, ele lamenta: “Para nós dois não há um mediador que possa se colocar entre mim e a Deus”.
2.3. Cumprimento em Cristo: Jesus é exatamente esse intermediário, esse mediador entre nós e Deus (I Tm. 2:5).
"Porque há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo, homem (I Tm. 2:5)."
2.4. O Redentor Vivo. Em uma das declarações mais famosas do livro, Jó revela uma fé profética: "Porque eu sei que o meu Redentor vive, e que por fim se levantará e virá me defender aqui na terra" (Jó 19:25).
2.5. Cumprimento em Cristo: Para a teologia cristã, Jesus é o Redentor. Ele é aquele que resgata o direito do fragilizado. Jesus é aquele que ressuscitou e garantiu a vitória final sobre a morte, a injustiça, a opressão e a dor.
2.6. A Restauração Final. No fim da narrativa, Deus vira o cativeiro de Jó e lhe restaura tudo em dobro.
“O Senhor fez com que Jó ficasse rico de novo e lhe deu em dobro tudo o que tinha tido antes” (Jó 42:10).
2.7. Cumprimento em Cristo: A obra de Cristo na cruz e Sua segunda vinda inauguram a restauração final de todas as coisas, onde Deus enxugará toda lágrima e subjugará definitivamente o mal e o sofrimento.
“O Senhor abençoou a última parte da vida de Jó mais do que a primeira” (Jó 42:12).
Pastor Washington Roberto Nascimento.