O leviatã - Uma breve reflexão
Pastor Washington Roberto Nascimento
O leviatã é um monstro marinho ou fluvial do caos primitivo, uma serpente, ou crocodilo ou dragão, e é mencionado na bíblia, e cujas origens remontam à mitologia fenícia.
Os fenícios tiveram o auge de sua civilização há cerca de 3200 anos a.C., e um de seus principais legados foi a navegação. Naquele tempo, construíam barcos e navios. Eles entendiam de navegação e de seus perigos no mar.
O leviatã - לִוְיָתָן - (lê-se: leviathan) é um animal que vive nas águas. Pode ser uma serpente ou um grande peixe ou um crocodilo ou um grande monstro marinho. Em termos de figura de linguagem, o leviatã é um símbolo de satanás, do diabo e, também, das nações inimigas do povo de Deus: Egito, Assíria, Babilônia, Roma; ou qualquer outra nação (império, poder) inimiga, que busque a destruição do povo de Deus ou de um servo do Senhor. A propósito deste tema, é importante destacar, também, a palavra hebraica - תַּנִּין – (lê-se: thanin) – que vem da palavra hebraica - תַּן – (lê-se: than), que significam: dragão, monstro marinho, serpente, chacal, aparecem várias vezes no Antigo Testamento (Gn. 1:21; Êx. 7:9, 10, 12; Dt. 32:33; Nm. 2:13; Jó 7:12; 30:29; Sl. 44:19; 74:13; etc); e tais palavras estão relacionadas com o leviatã - לִוְיָתָן - (lê-se: leviathan).
Nos livros de: Jó, Salmos e Isaías nós temos as referências bíblicas diretas e literais ao leviatã - לִוְיָתָן – לויתן – (lê-se: leviathan), o qual é apresentado de maneira semelhante ao -- תַּנִּין – (lê-se: thanin) – como uma serpente ou monstro marinho ou dragão ou crocodilo, que possui um poder, uma força devastadora, impossível de se descrever dentro de uma perspectiva humana, mas que é nada diante do Senhor.
Os textos de Jó 41:1 e Isaías 27:1 da LXX, 300 a. C, trazem a tradução dessa palavra hebraica - לִוְיָתָן – לויתן – por δράκοντα (lê-se: dragonta), literalmente: dragão. E, é essa palavra grega da LXX que aparece literalmente no texto grego original de Apocalipse 20:2. Trata-se de um substantivo da 3ª declinação, que está no acusativo, singular, masculino.
No Salmo 74:14, a palavra hebraica - לִוְיָתָן - foi traduzida pela LXX por δρακόντων - (lê-se: drakónton) – que é o mesmo substantivo acima, mas que se encontra no caso genitivo/ablativo, plural, masculino – (dos) dragões – tradução literal.
No Salmo 104:26, a palavra hebraica - לִוְיָתָן - foi traduzida pela LXX por δράκων (lê-se drákon) – que é, também, o mesmo substantivo acima mencionado, porém, no caso nominativo, singular, masculino – dragão – é a tradução literal.
Mas, em Jó 3:8, a LXX traduziu a palavra hebraica - לִוְיָתָן - por κῆτος (lê-se: kêtos), que é a mesma palavra que aparece no texto grego original de Mateus 12:40, e que em português tem sido traduzido por baleia ou grande peixe. A palavra κῆτος é da terceira declinação em grego, é um substantivo neutro e em Jó 3:8, no texto da LXX, está no singular, caso acusativo.
Quando analisamos o texto de Jó 3:8, percebemos que o sentido mais provável deste versículo é:
“Que aqueles que amaldiçoam os dias o amaldiçoem. Aqueles que são habilidosos para despertar o leviatã” (tradução literal do hebraico – Jó 3:8).
“Aqueles que amaldiçoam os dias” - outra tradução interpretativa possível - “o dia dos encantadores e mágicos, que se acreditava terem o poder de lançar seu feitiço e subjugar o leviatã”. A primeira metade de Jó 3:8 é explicada pela segunda metade deste versículo, e apenas uma espécie de encantamento (ou maldição) se refere, a saber, despertar o Dragão (isto é, o leviatã, o diabo).
Há, também, em Jó 3:8, uma conexão entre despertar o crocodilo e amaldiçoar os dias. A palavra leviatã significa retorcido ou com dobras e é um epíteto de serpente, o que aponta para satanás.
Precisamos das informações de todos os textos onde o leviatã é mencionado para que, sob a luz dos textos da Palavra de Deus, possamos interpretar corretamente essa figura: o leviatã.
Em Isaías 27: 1, lemos:
“Naquele dia Jeová com sua espada grande e forte ferirá o Leviatã, a serpente fugitiva, e Leviatã, a serpente com espirais”.
O profeta Isaías está procurando consolar o povo de Deus que sofre ameaças dos leviatãs: o Império Assírio, em um dado momento; e o Império Babilônico, em outro momento. Bem, o profeta Isaías diz que o dia do Senhor chegará, quando Ele, o Senhor, castigará com a sua dura espada, grande e forte, o leviatã, a serpente veloz, e o leviatã, a serpente tortuosa, e matará o dragão que está no mar (Is. 27:1).
O leviatã, de acordo com Isaías 27:1, é fugitivo, e assim é, também, satanás, ele é fugitivo do céu (Ap. 12:7-9). O leviatã é sinuoso que significa: venenosos, tortuoso, traiçoeiro. Assim é, também, satanás. Ele enganou nossos primeiros pais e quis enganar, também, a Jesus (Gn. 3; Mt. 4). Ele continua envenenando muitas pessoas, enganando muita gente ainda hoje (At. 13:9-10). O leviatã está no mar assim como Satanás (Ap. 13:1). Bem sabemos que o mar pode ser interpretado como: povos, nações. O leviatã vive no mar, como satanás, isto é, no meio das nações, dos povos, para controlar as pessoas (Ap. 17:15).
A palavra: leviatã - לִוְיָתָן - ocorre seis vezes na Bíblia (Jó 3:8; 41:1; Sl. 74:14; 104:26; e duas vezes em Is. 27:1).
A descrição do leviatã em Jó 41 é de um ser com uma força letal e avassaladora e assustadora. As perguntas são retóricas. O propósito é mostrar que o ser humano (Jó ou qualquer outro) é nada diante do leviatã, o diabo. Mas, o leviatã diante de Deus é nada, basta ver os textos do Salmo 74:13-14 e Isaías 27:1. O leviatã é vencido por Deus, nosso Senhor. O leviatã que é tão poderoso diante dos homens, é nada diante do Senhor.
No Salmo 104:24-26, o escritor bíblico diz que tudo foi feito pelo Senhor, até mesmo o leviatã. Isso nos ensina que o leviatã é o anjo caído (Is. 14:12-19; Ez. 28:12-19; Ap. 12:9).
O leviatã nos textos de Jó 3:8; 41:1; Salmo 74:12-14, e Isaías 27:1, pode ser considerado como um epíteto descritivo de satanás (ou diabo), arqui-inimigo de Deus, de Seu povo ou de Seu servo. O leviatã, portanto, é mais do que a descrição de um tipo de animal. Podemos usá-lo para falar de um ser ou uma organização, ou qualquer coisa que tem um poder letal, avassalador, contra quem não conseguimos vitória com as nossas próprias forças humanas, pois é o próprio Satanás que se transfigura (II Co. 11:14) e tem suas terríveis ciladas (Ef. 6:11-12).
O leviatã no livro de Jó é para convencer a Jó (e a nós também) de sua própria fraqueza diante das provações desta vida, das coisas más neste mundo; e para ensinar a ele (e a nós) que o nosso Deus, o Senhor, está acima de tudo e de todos.
Se esse Leviatã é uma baleia ou um crocodilo ou uma serpente, essa é uma questão controversa e de menor importância para a exegese e hermenêutica dos textos. O Senhor, tendo mostrado a Jó e ao seu povo (Is. 27:1), como nós somos incapazes de lidar com o Leviatã, de vencê-lo, sozinhos. Precisamos do Senhor.
As palavras em Jó 3:8 e 41:1-34 descrevem a terrível força do Leviatã. Tais palavras são nada quando comparadas as palavras que podem expressar o poder de Deus, o Senhor.
A descrição do leviatã em Jó 41 é estarrecedora. Sua força é incomparável em termos humanos. Ele tem cabeça, nariz, boca e língua, mas ele não é humano. Ele é o próprio diabo, o próprio satanás. Da sua boca sai fogo e do seu nariz fumaça (Jó 41:19-21). Quando comparamos as descrições do livro de Jó do leviatã e aquilo que lemos no Apocalipse sobre Satanás, podemos dizer que eles são uma só pessoa que foi/será derrotada pelo Senhor “naquele dia”, de acordo com Isaías 27:1. Jesus já triunfou sobre ele na Cruz (Cl. 2:13-15), “naquele dia, na cruz”.
A força do Senhor é infinitamente maior do que o poder do leviatã, o diabo, de acordo com os textos dos Salmos 74:13-14; 104:25-27; e de Isaías 27:1. Diante disso, não temos que temer o leviatã, mas ao Senhor, reverenciar a Sua Divina Majestade; dar-lhes glórias pois, o Senhor não é apenas incomparável em força, mas em graça e amor.
As narrativas bíblicas sobre o leviatã é um convite para confiarmos inteiramente em Deus, nosso Senhor, e com ele andarmos com fé e humildade.
O Senhor é maior e mais poderoso que os monstros marinhos, os leviatãs. Ele, o Senhor, derrotou os leviatãs, cortando suas cabeças e com elas alimentou o seu povo no deserto (Sl. 74:13-14). Aleluia!
O leviatã, também, foi criado pelo Senhor e, portanto, ele, o leviatã, ou o que ele simboliza, não se encontra fora do alcance do Senhor, do Seu poder, da Sua autoridade (Sl. 104:25-27).
Em Jó 26:13-14, como nos Salmos 7:13-14 e 104:25-27, e Isaías 27:1, temos a superioridade do poder do Senhor sobre o leviatã que aparece indiretamente mencionada aqui em Jó 26:13-14.
“Pelo Seu Espírito, os céus se tornam brilhantes (Deus limpou os céus, sua habitação),
Sua mão perfura (fere, mata, ergue) a serpente em fuga” (Jó 26:13).
“Eis que isto é apenas como orlas (as pontas, beiras) dos seus caminhos; e quão pouco é o que temos ouvido dele (do Senhor – temos ouvido apenas um sussurro, um cochicho)! Quem, pois, entenderia o trovão (o grito) do seu poder?” (Jó 26:14).
Aqui, perfurar a serpente em fuga e tornar os céus claros são atos paralelos. A serpente em fuga, portanto, foi a causa das trevas.
Deus faz com que os céus fiquem claros, iluminados, limpos. Então, se subentende que estavam escuros. Trata-se do escurecimento ou eclipse do sol e da lua causado pela serpente, o dragão, o leviatã. Ao ser jogado para fora do céu, levou consigo parte dele (Jó 3:8-9; Ap. 12:4, 9).
O leviatã na Bíblia aponta para a pessoa de Satanás, o Diabo, a antiga serpente (Gn. 3:1). Também chamada de dragão em Apocalipse 12:9, a antiga serpente (Ap. 12:3, 4, 7, 8, 9, 12, 13, 15-18). Pois, o leviatã é descrito nos textos bíblicos como uma serpente, um réptil, um dragão, com enorme poder de destruição. Tudo aponta para Satanás em todos os sentidos de acordo com o que a Bíblia ensina sobre um e sobre o outro. Eles são o mesmo.
A vitória de Deus contra o leviatã descrita em Isaías 27:1, acontecerá: “Naquele dia”. Que dia é este? De acordo com Isaías 26, que é o contexto do texto de Isaías, “naquele dia” diz respeito ao dia da ressurreição, o último dia, o dia do juízo final, o último dia da história (Ap. 20:10), que já foi escrito pelo Senhor na Cruz e na Ressurreição de Jesus.
O escritor inglês, Thomas Hobbes, século XVII, escreveu uma obra cujo o título é: “O Leviatã – Ou Matéria, Forma e Poder de um Estado eclesiástico e Civil”. É um texto fundamental da teoria do contrato social. Nessa obra, Hobbes fala do soberano que pode ser entendido como o Poder Político, ou o Estado ou quem o representa, em termos metafóricos, como o leviatã.
A obra de Hobbes fala dos cidadãos do estado que sabem de sua natureza animal primitiva, ou seja, de como o ser humano é em seu estado natural, sem lei alguma, o que eles são capazes de fazer, desencadear: a anarquia, a desordem, a confusão, uma guerra insana todos contra todos, tudo contra tudo.
Bem, diante desse fato, o ser humano em seu estado natural, Hobbes fala sobre a importância de eliminar o caos produto da vida em seu estado natural tanto por parte das pessoas, dos animais e da própria natureza (chuva, tempestades, terremotos, etc). Para tanto, isto é, a eliminação da anarquia, precisa haver um pacto social, onde todos renunciam parte da soberania, direitos, liberdades em nome de (para, em favor de) uma figura (o soberano, o leviatã) que tem poder absoluto. Essa figura pode ser o Estado, o rei, a rainha, o presidente, o senado, a câmara dos deputados, o juiz ou os juízes, que devido ao seu enorme poder diante dos homens, das pessoas, recebe dessas próprias pessoas um enorme poder semelhante ao do leviatã na Bíblia. Por isso, Thomas Hobbes, que era cristão, compara a autoridade eleita pelo povo, ao monstro bíblico Leviatã, a quem o povo precisa obedecer para alcançar paz.
Foi a primeira exploração realmente robusta sobre o porquê as pessoas se reúnem sob um governo e torna esse governo legítimo e viável. Nessa obra, o autor, Thomas Hobbes, fala das leis naturais. De acordo com ele a primeira lei fundamental da natureza é: busque a paz. A segunda lei fundamental da natureza é: o contrato social para viabilizar a paz.
Para que haja a paz por meio do contrato social a liberdade em uma comunidade política começa com o despojamento da liberdade natural. Há um processo: renúncia de liberdades e direitos e transferência de autoridade e poder para o leviatã (isto é, o governo, o estado, ou o que o representa) para que este possa estabelecer a paz.
Porém, nem todos os direitos são alienáveis. Exemplos: autoproteção e autoacusação. Toda pessoa tem direito de se autodefender mesmo contra o soberano (o leviatã), defender a sua vida, sua família, sua propriedade. Sobre a autoacusação, Thomas Hobbes acreditava que ninguém é obrigado a fazer qualquer declaração que possa incriminá-lo, esse seria outro direito que não poderia ser alienável.
Thomas Hobbes sugere que sem governo, há caos. Porque? Por que os indivíduos são incapazes de se governar em uma sociedade? Por que precisamos designar líderes para que uma sociedade seja bem-sucedida? O que há na natureza humana que exige que os indivíduos transfiram seu poder/autoridade de governo para uns poucos selecionados? O "Leviatã" de Thomas Hobbes é um texto filosófico clássico que propõe respostas a essas questões que são a base de muitas das formas modernas de governo do mundo.
Será que Thomas Hobbes tinha uma visão positiva do leviatã descrito na Bíblia?
Será que o Soberano (que o poder de governar, estabelecer a paz na sociedade) na obra de Thomas Hobbes, e que desempenha o papel do leviatã, é algo, também, mau, demoníaco?
O que fazer quando o Soberano (o governo), o leviatã, que recebeu do povo o poder, o direito de agir em favor da paz, se corrompe e se torna satânico, o que fazer? Vencer o leviatã com o poder do Senhor nosso Deus, e em Seu Nome?