Teologia do Antigo Testamento - Uma breve reflexão

Data publicação 13/09/2021

Teologia Bíblica do Antigo Testamento – Uma breve reflexão

Introdução Geral

A teologia do Antigo Testamento (ou Bíblia Hebraica) não pode prescindir do Novo Testamento, de seus escritores, da pessoa do Senhor Jesus Cristo, seu personagem central, e de seus apóstolos. 

A Bíblia da Igreja Primitiva, de Jesus Cristo e seus apóstolos, foi o Antigo Testamento. O maior e melhor comentário do Antigo Testamento é o Novo Testamento. O maior e melhor intérprete do Antigo Testamento foi (é) Jesus Cristo.  

A melhor exegese, interpretação e teologia do Antigo Testamento se encontram no Novo Testamento, na pessoas do Senhor Jesus Cristo (Lc. 24:13-35; 24:37-49; 24:25-27; 24:44-49; Rm. 15:4; I Co. 15:1-4; Gl. 3:6-9; Hb. 1:1-2; etc.). 

Não temos na Bíblia dois deuses: um do Antigo Testamento e um do Novo Testamento. Temos apenas um Deus na Bíblia. O Grande Eu Sou do Antigo Testamento (Êx. 3) é Jesus, o Grande Eu Sou, no Novo Testamento (Todo o Evangelho de João).

Algumas pessoas não leem o Antigo Testamento e desprezam sua teologia 1. por causa do papel da mulher em relação ao papel do homem; da ênfase nos patriarcas, por exemplo; 2. por causa da ênfase na lei e não na graça; 3. por causa do problema da culpa presente em decorência da lei.

Temos o Evangelho (a Graça) no Antigo Testamento e temos a palavra de condenação no Novo Testamento, mas ignoramos isso (Gn. 6:8; Jo. 3:16-18). 

1. O que é

A teologia do Antigo Testamento é o ramo da teologia bíblica, que busca uma visão teológica dentro do Antigo Testamento, sem ignorar o Novo Testamento, que é a árvore da semente que foi plantada por Deus no Antigo Testamento. A teologia do Antigo Testamento explora conceitos teológicos sobre Deus, seu caráter, sua revelação e relação com os homens e seu agir na história.

2.  O método.

Qual será o nosso método de agir, de proceder, de organização para a construção de uma teologia bíblica do Antigo Testamento?

3. Exemplos de Métodos

3.1. Construir uma teologia bíblica do Antigo Testamento através da História de Israel.

3.2. Construir uma teologia bíblica através da História da Salvação – Heilsgeschichte – onde temos o αἰώνιον (a era, a época, o ciclo, a eternidade, a história) mais o καιρός (o tempo oportuno, a ocasião certa) que pode ter, por sua vez, o tempo de duração, o período variável, isto é, o χρόνος.

εἶπεν δὲ πρὸς αὐτούς· οὐχ ὑμῶν ἐστιν γνῶναι χρόνους  ἢ καιροὺς οὓς ὁ πατὴρ ἔθετο ἐν τῇ ἰδίᾳ ἐξουσίᾳ, (Atos 1:7).

“E disse-lhes: Não vos pertence saber os tempos ou as estações que o Pai estabeleceu pelo seu próprio poder”.

καὶ ὃς ἐὰν εἴπῃ λόγον κατὰ τοῦ υἱοῦ τοῦ ἀνθρώπου, ἀφεθήσεται αὐτῷ· ὃς δ’ ἂν εἴπῃ κατὰ τοῦ πνεύματος τοῦ ἁγίου, οὐκ ἀφεθήσεται αὐτῷ οὔτε ἐν τούτῳ τῷ αἰῶνι οὔτε ἐν τῷ μέλλοντι (Mateus 12:32).

τούτῳ vem do pronome demonstrativo: οὗτος, αὗτη, τοῦτο.

οὔτε – advérbio de negação.

“E, se qualquer disser alguma palavra contra o Filho do homem, ser-lhe-á perdoado; mas, se alguém falar contra o Espírito Santo, não lhe será perdoado, nem neste século nem no futuro”.

Um exemplo de texto da história da Salvação.

Deuteronômio 26:1-11.

E será que, quando entrares na terra que o SENHOR teu Deus te der por herança, e a possuíres, e nela habitares.

Então tomarás das primícias de todos os frutos do solo, que recolheres da terra, que te dá o Senhor teu Deus, e as porás num cesto, e irás ao lugar que escolher o Senhor teu Deus, para ali fazer habitar o seu nome.

E irás ao sacerdote, que houver naqueles dias, e dir-lhe-ás: Hoje declaro perante o Senhor teu Deus que entrei na terra que o Senhor jurou a nossos pais dar-nos.

E o sacerdote tomará o cesto da tua mão, e o porá diante do altar do Senhor teu Deus.

Então testificarás perante o Senhor teu Deus, e dirás: Arameu, prestes a perecer, foi meu pai, e desceu ao Egito, e ali peregrinou com pouca gente, porém ali cresceu até vir a ser nação grande, poderosa e numerosa.

Mas os egípcios nos maltrataram e nos afligiram, e sobre nós impuseram uma dura servidão.

Então clamamos ao Senhor Deus de nossos pais; e o Senhor ouviu a nossa voz, e atentou para a nossa miséria, e para o nosso trabalho, e para a nossa opressão.

E o Senhor nos tirou do Egito com mão forte, e com braço estendido, e com grande espanto, e com sinais, e com milagres.

E nos trouxe a este lugar, e nos deu esta terra, terra que mana leite e mel.
E eis que agora eu trouxe as primícias dos frutos da terra que tu, ó Senhor, me deste. Então as porás perante o Senhor teu Deus, e te inclinarás perante o Senhor teu Deus.

E te alegrarás por todo o bem que o Senhor teu Deus te tem dado a ti e à tua casa, tu e o levita, e o estrangeiro que está no meio de ti.

A Teologia Bíblia do Antigo Testamento baseada na História da Salvação vem das declarações bíblicas de que o Senhor é Deus que salva.

Salmo 18:46; 24:5; 25:5; 27:9; 51:14; 65:5; 68:19; 79:9; 85:4; 88:1; etc.

3.3. O Deus da Aliança - Os Pactos de Deus na Bíblia

Temos, pelo menos, quatro pactos (concerto, aliança, tratado - No texto hebraico do Antigo Testamento - : בְּרִיתברית – (lê-se: berith) - E, no texto grego do Novo Testamento e da LXX - διαθήκη - (lê-se: diathéke) - onde há a ocorrência literal da palavra original: pacto (aliança, concerto, tratado). Eis os pactos: Com Noé, com Abraão, com Israel, com Davi e o anúncio do Novo Pacto.

Veja o link https://youtu.be/fpovx0p1IFo  

3..4. Construir uma teologia bíblica do Antigo Testamento através do tema da promessa.

3.4.1. Os prolegômenos (as coisas preliminares, as coisas que são ditas antes) da promessa – a era pré-patriarcal.

3.4.2. As provisões da promessa – a era patriarcal.

3.4.3. O povo da promessa – a era mosaica.

3.4.4. A terra (local) da promessa – a era pré-monárquica – a era da conquista.

3.4.5. O rei da promessa – A era da monarquia.

3.4.6. A vida da promessa – A era sapiencial.

3.4.7. Os profetas da promessa –

3.4.7.1. Tempo de juízo – porque olvidaram, desprezaram a promessa.

3.4,7.2. O servo sofredor que foi prometido.

3.4.7.3. A renovação da promessa.

3.4.7.4. O reino futuro da promessa.

3.4.7.5. O triunfo da promessa.

3.5. Construir uma teologia bíblica através do Messias, do Cristo.

Gênesis capítulo 3:15 é o início que encontra-se presente ao longo da Bíblia.

3.6. Construir uma teologia bíblica do Antigo Testamento através da história da forma – formgeschichte. Este termo vem do escritor alemão Goethe, de sua obra: Morfologia (que significa: descrição da forma, o estudo da estrutura e da formação de palavras).

3.6.1. Na teologia a formgeschichte examina o texto bíblico baseado no gênero literário, na forma literária, na análise das palavras.

3.6.2. Temos: a saga, a etiologia, o oráculo, a novela, a poesia, a lei, a profecia etc.

3.6.3. Uma saga não descreve o acontecimento.

3.6.4. A saga descreve o efeito de determinado acontecimento ou lugar.

3.6.5. A saga tem como finalidade transmitir e prolongar o efeito do acontecimento ou do lugar.

3.6.6. Um exemplo de saga apresentado pela formgeschichte é A Luta de Jacó com o Anjo.

Gênesis 32:22-32.

“E levantou-se aquela mesma noite, e tomou as suas duas mulheres, e as suas duas servas, e os seus onze filhos, e passou o vau de Jaboque”.

“E tomou-os e fê-los passar o ribeiro; e fez passar tudo o que tinha”.

“Jacó, porém, ficou só; e lutou com ele um homem, até que a alva subiu”.

“E vendo este que não prevalecia contra ele, tocou a juntura de sua coxa, e se deslocou a juntura da coxa de Jacó, lutando com ele”.

“E disse: Deixa-me ir, porque já a alva subiu. Porém ele disse: Não te deixarei ir, se não me abençoares”.

“E disse-lhe: Qual é o teu nome? E ele disse: Jacó.

Então disse: Não te chamarás mais Jacó, mas Israel; pois como príncipe lutaste com Deus e com os homens, e prevaleceste”.

“E Jacó lhe perguntou, e disse: Dá-me, peço-te, a saber o teu nome. E disse: Por que perguntas pelo meu nome? E abençoou-o ali”.

E chamou Jacó o nome daquele lugar Peniel, porque dizia: Tenho visto a Deus face a face, e a minha alma foi salva”.

“E saiu-lhe o sol, quando passou a Peniel; e manquejava da sua coxa”.

“Por isso os filhos de Israel não comem o nervo encolhido, que está sobre a juntura da coxa, até o dia de hoje; porquanto tocara a juntura da coxa de Jacó no nervo encolhido”.

3.6.7. Uma lição desta saga é que ela traz uma questão etiológica – A etiologia explica, apresenta razões de como algo surgiu. Porque não se come o nervo encolhido sobre a juntura da coxa dos animais.

3.6.8. As leis alimentares – a razão de um mandamento (Gn. 32:32) – מִּצְוֹתֶֽ – (lê-se: mitsvot) - significa: mandamento.

3.6.9. No texto de Gênesis 32:22-32 temos a explicação sacerdotal de culto naquele lugar – o nome do lugar é: ל נִיאֵ֑פְּ – A Face de Deus - Um lugar onde a face de Deus podia ser buscada e encontrada.

3.6.10. Deus está em todo o lugar.

3.6.11. As leis alimentares – a razão de um mandamento (Gn. 32:32) – מִּצְוֹתֶֽ – (lê-se: mitsvot) - significa: mandamento.

3.6.12. O adorador tinha que dar algo para a divindade, mas nesta história a divindade é quem dá algo para o adorador. Mostra o caráter enganador e trapaceiro de Jacó. Ele passa a perna em todo o mundo até no anjo do Senhor.

Veja uma videoaula sobre este texto - Gênesis 32 - link - https://www.youtube.com/watch?v=rlL7_2cAT8I

3.7. Construir uma teologia bíblica do Antigo Testamento através da história das tradições, dos documento J,E, P e D.

Javista –  Exemplo - Gênesis capítulo 2

Eloista – Exemplo – Gênesis capítulo 1.

P – Sacerdotal (Priestly) – O livro de Levítico – datas, culto, ritos, cerimônias.

D – Deuteronomista – O princípio da obra deuteronomística que norteou a escola que produziu a obra que vai de Deuteronômio até II Reis.

3.8. Construir uma teologia bíblica do Antigo Testamento baseado nos nomes de Deus:

Um nome fala da natureza, caráter e obra de seu possuidor.

3.8.1. El-Shaddai – Gênesis 17:1. אֲנִי־אֵ֣לשַׁדַּ֔י

Sendo, pois, Abrão da idade de noventa e nove anos, apareceu o SENHOR a Abrão, e disse-lhe: Eu sou o Deus Todo-Poderoso, anda em minha presença e sê perfeito.

O nome de Deus: Eu (sou) El-Shaddai  - O verbo ser é sempre ausente em hebraico  –         היה

O El significa Deus e o Shaddai significa: Seio, de onde as crianças tiram o sustento; ou Montanha do Acadiano, babilônico Antigo, o que dá a ideia de poder, força, inabalável, imbatível na guerra.

Este nome de Deus ocorre 7 vezes no A.T.(Veja Gn. 28:3; 35:11; 43:14; 48:3).

3.8.2. El Elyon – O Deus Altíssimo - עֶלְיֹֽון׃  אֵ֥ל

Gênesis 14:18.

“E Melquisedeque, rei de Salém, trouxe pão e vinho; e era este sacerdote do Deus Altíssimo”.

Este nome de Deus ocorre 28 vezes no A.T. A ideia é de um Deus exaltado, sublime. (Veja Gn. 14:19; 20; Sl. 57:2; 78:35).

3.8.3. Deus como: Adonai – אֲדֹנָ֤י֙   Gênesis 15:2.

   יֱהוִה֙    אֲדֹנָ֤י  אַבְרָ֗ם וַיֹּ֣אמֶר

Adonai ocorre mais de 430 vezes no AT. Literalmente significa: Meu Senhor.

Para muitos estudiosos este nome surgiu no período pós-exílio como um substituto do nome Javé – יֱהוִה֙

3.8.4. Javé – Jeová – IAVE – יֱהוִה֙

Este nome ocorre mais de 6.500 vezes no AT. É o nome de Deus mais usado em todo o AT em comparação com os outros nomes.

A primeira ocorrência do nome Javé – יֱהוִה֙ – encontra-se me Gênesis 2:4.

“Estas são as origens dos céus e da terra, quando foram criados; no dia em que o Senhor  -  יֱהוִה֙      Deus fez a terra e os céus”.

De acordo com a tradição judaica este nome é santo para ser pronunciado.

Em obediência ao mandamento em Êxodo 20:7, os judeus não pronunciam este nome.

“Não tomarás o nome do Senhor  יֱהוִה֙  teu Deus em vão; porque o Senhor  יֱהוִה֙  não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão”.

Ele é considerado o tetragrama sagrado, por causa das quatro vogais.

3.8.5. Javé Nissi – O Senhor é a minha Bandeira -   ׀ נִסִּֽי׃   יְהוָ֥ה

Aparece apenas uma vez em todo o AT e é aqui em Êxodo 17:15, depois da vitória contra os amalequitas.

“E Moisés edificou um altar, ao qual chamou: O SENHOR É MINHA BANDEIRA”.

Israel na pessoa de seu líder, Moisés, reconhecia que as vitórias foram conquistadas debaixo de uma bandeira: O Senhor.

A bandeira pendurada era e é para ser vista pelos soldados em batalha para que, ao olhá-la, eles tivessem esperança, inspiração força para lutar e vencer.

Os soldados lutavam debaixo de uma bandeira que pudesse produzir tudo isto em seus corações. Para Moisés o Senhor era a sua Bandeira e por isto lhe edificou um altar.

3.9. Construir uma teologia bíblica do Antigo Testamento baseado no evento histórico central, ou na ideia central do Antigo Testamento.

Exemplo: Uma teologia baseada no Êxodo.

O Êxodo como fundamento da Fé de Israel, da Teologia do Antigo Testamento.

Êxodo 20:1-3.

“Então falou Deus todas estas palavras, dizendo”:

“Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão”.

“Não terás outros deuses diante de mim”.

Deuteronômio 5:6-7.

“Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão”.

“Não terás outros deuses diante de mim”.

3.10. Deus, o Senhor, como o tema central da Biblia.

Deus é Misericordioso 

Link 

https://youtu.be/lWte7R-E96s?t=2

Deus é tardio em irar-se 

Link

https://youtu.be/k2smX6Ma5GA?t=2 

Deus é Gracioso 

Link

https://youtu.be/qIeWGmijqV4?t=3 

Deus é Compassivo 

Link

https://youtu.be/No13LbBYSAA?t=2

3.11. Um exemplo de texto bíblico que serve a Teologia Bíblica do Antigo Testamento.  O capítulo 4 de Gênesis, versos 1 e 26, coloca Javé, como aquele a quem Enos cultuava, este que era a terceira geração na terra, apresentando, assim Javé como o Deus criador.

4. Considerações gerais sobre a construção de umaTeologia Bíblica do Antigo Testamento

4.1. A Teologia Bíblica do Antigo Testamento tem início no século XVI.

4.2. A Teologia Bíblica do Antigo Testamento tem como base o Antigo Testamento e não pode olvidar o Novo Testamento.

4.3. A Teologia Bíblica do Antigo Testamento tem uma dimensão histórica, pois sua fonte é a história de Israel como registrada no Antigo Testamento.

4.4. Na construção da Teologia Bíblica do Antigo Testamento o que se procura é a mensagem central, unificadora dos Escritos Veterotestamentários.

4.5. A teologia Bíblica do Antigo Testamento não pode deixar de considerar Deus e sua relação com o mundo e com o homem.

4.6. A Teologia Bíblica do Antigo Testamento precisa considerar o Governo de Deus sobre tudo e todos e sua relação com toda a sua criação em especial com o homem, criado a sua imagem e semelhança.

4.7. A Teologia Bíblica do Antigo Testamento precisa refletir sobre o culto, a revelação, a história de Israel, as instituições políticas e religiosas e o futuro de Israel e/ou o futuro da humanidade.

Apêndice 

Uma teoloigia baseada na Revelação de Deus: Sua pessoa, atributos, caráter

Pastor Washington Roberto Nascimento

A Bíblia ensina que o conhecimento de Deus é a coisa mais importante na nossa vida. Oséias disse que o povo do Senhor está sendo destruído porque lhe falta conhecimento (Os. 4:6).

Este conhecimento de Deus é produto não apenas de uma reflexão filosófica, abstrata, intelectual. É produto de um relacionamento com Deus marcado pela fé e pelo amor.

A Bíblia ensina que Deus se deus a conhecer, ele se revelou. Não podíamos por nós mesmos conhece-lo por causa de nossos pecados, falhas, fraquezas, limitações.

Um dos textos mais extraordinários na Bíblia sobre a revelação de Deus é Êxodo 34:5-7. E, é nele que vamos meditar neste momento.

Êxodo 34:5-7

“O SENHOR desceu numa nuvem e ficou ali com ele e chamou seu nome: O SENHOR”

O Senhor poderia ser traduzido por EU SOU. Literalmente seria: Pelo Nome do EU SOU - בשם יהוה ) – Aqui nós temos a preposição: ב  -  que pode ser traduzida: por; mais um substantivo: nome. Deus vem a Moisés e se revela com o NOME de SENHOR – o Deus da aliança que apareceu a Moisés no deserto e o comissionou para ser o libertador de Seu povo. Este nome de Deus – o tetragrama sagrado – SENHOR - יהוה   -  vem do verbo: הָיָה -     היה   -  SER. O Deus da Bíblia – do Antigo Testamento e do Novo Testamento é o Grande Eu Sou. Sua auto existência é independente de qualquer coisa ou ser. Ele, o Senhor, não é o grande eu era, eu costumava ser, eu serei. Ele é o grande Eu Sou independente de tempo, lugar, circunstâncias, coisa ou pessoa.

No Novo Testamento Jesus é o grande Eu Sou. Há vários textos, principalmente no Evangelho de João, ensinando que Jesus é o Eu Sou (Jo. 4:26; 6:35, 41, 48, 51. 8:12, 58; 10:7, 9, 11, 14; 11:25; 14:6; 15:1, 5). Em Hebreus 11:6, diz que sem fé é impossível agradar a Deus, pois a pessoa que crê em Deus, aproxima-se dele crendo que Ele é – o verbo no original é: εἰμί – sou – na terceira pessoa do presente do indicativo ativo - ἔστιν: é.

O substantivo – nome - שם  - fala do caráter do Senhor, de sua própria pessoa, de seu próprio ser. O Nome -  הַשֵּֽׁם - השם  - de Deus é Deus mesmo. Não há como desassociar uma coisa da outra. No Novo Testamento aprendemos que Deus deu ao seu filho um nome que está sobre todos os nomes, e, é no nome de Jesus que somos salvos, não há outro nome dado entre os homens (At. 4:12; Fp. 2:9-11).

Aqui, neste texto, Êxodo 34:5, podemos entender que o nome de Deus é o Tetragrama Sagrado - יהוה  - vem do verbo: הָיָה -   היה  -  Há vários falsos deuses, deuses de mentira, deuses que não são nada, mencionados no Antigo Testamento:

Astarote – deus dos sidônios (I Rs. 11:5).

Milcom – deus dos amonitas (I Rs. 11:5).

Moloque – deus dos amonitas (I Rs. 11:7).

Quemos – deus dos moabitas (I Rs. 11:7; Nm. 21:29).

Baal – deus dos sidônios (I Rs. 16:29-33).

Dagom – deus dos filisteus (I Sm. 5:1-5).

Há esses deuses falsos mencionados no Antigo Testamento, entre outros. O Senhor, através, da revelação bíblica, do texto de Êxodo 34:5, está dizendo, ensinando, que não há outro Deus além do Senhor – o tetragrama sagrado. Assim sendo, a primeira descrição do Senhor é que Ele é Deus, não há outro Deus além dele.

Então ele passou à frente de Moisés, clamando: "O SENHOR, o SENHOR, Deus compassivo e gracioso, tardio em irar, grande em misericórdia e verdade” (Êx. 34:6).

Neste texto bíblico (Êx. 34:6), o Senhor, depois de ter se apresentado como Deus, acrescenta que Ele:

O Senhor é Deus

O Senhor é compassivo

O Senhor é gracioso

O Senhor é tardio em irar

O Senhor é grande em misericórdia

O Senhor é grande em verdade

Vamos, agora, analisar um por um dos atributos de Deus como o Senhor.

I - O Senhor é compassivo – A palavra traduzida por compassivo é um adjetivo: רַח֖וּםרחום – Esta palavra que encontramos aqui em Êxodo 34:6, aparece também como um substantivo: רַחֲמֶיהָ֮רחמיה ou מֵרַחֵ֖םמרחם – ambas as palavras, o adjetivo e o substantivo veem da palavra, do substantivo: רֶחֶם ventre, útero – do verbo רָחַם  ter compaixão – רחם que significa não apenas ter compaixão, mas é, também, a mesma palavra para útero, ventre. Tanto o substantivo hebraico – ventre, útero; quanto o verbo hebraico tem as mesmas consoantes. Assim sendo, esta palavra que é usada para descrever Deus, é a mesma palavra para descrever a parte central e íntima de uma mulher onde a vida acontece, é gerada, toma lugar. Esta palavra, com este sentido de ventre, útero, nos convida a imaginar os sentimentos, as emoções mais profundas de uma mulher para com o seu filho. É uma metáfora, aqui somos convidados a fazer uma comparação, um paralelo entre o sentimento de Deus por nós semelhante ao sentimento de uma mulher para com o seu bebê tão vulnerável e dependente.

Assim sendo, רַח֖וּםרחום – é uma palavra muito especial que fala de uma emoção intensa, traduzida por compaixão.

Vamos destacar dois textos onde esta palavra: compaixão, útero, ocorre.

I Reis 3:26.

Neste texto do livro de Reis, temos a história de duas mulheres que haviam dado à luz, mas um dos bebês acabou morrendo. Mas, ambas disseram que o bebê que ainda vivia era o bebê delas. Para resolver o problema, o rei Salomão mandou que o bebê fosse cortado no meio e desse para cada uma das mulheres uma metade. É exatamente neste momento que nós encontramos a palavra de Êxodo 34:6, nos lábios da verdadeira mãe - רַח֖וּםרחום

“Então a mulher cujo filho estava vivo falou com o rei porque ela tinha muita compaixão -   רַחֲמֶיהָ֮רחמיה -  por seu filho. “Por favor, meu senhor, ela disse, dê a ela o bebê vivo. Não o mate! Mas a outra mulher disse: Ele não será nem meu nem seu. Corte-o em dois!”

Compaixão - רַח֖וּםרחום – é a palavra que revela quem é a verdadeira mãe, quem ama e se importa pela vida de seu filho de verdade. Esta é uma palavra que revela não apenas emoção, mas ação. Trata-se de uma compaixão que age em favor do bem de quem se ama, produz, gera, vida e não morte, salvação ao invés de destruição, livramento, sabedoria nas decisões.

Isaías 49:15.  -

“Pode uma mulher esquecer o filho que está amamentando ou ter falta de compaixão - מֵרַחֵ֖ם - מרחם - pelo filho do seu ventre? Mesmo que ela pudesse esquecer, eu não vou te esquecer!

Ao encontrarmos uma palavra para descrever Deus que tem relação íntima com o ventre, o útero de uma mulher, onde a vida acontece, é gerada, percebemos que Deus é mais do que uma sociedade patriarcal imaginou. E, a despeito dos valores patriarcais daquela sociedade onde a revelação bíblia tomou lugar, temos aqui diante de nós, uma revelação de Deus que é uma subversão do Deus homem, macho, pai. Aqui temos um Deus que tem compaixão, tem útero, ventre, e é dentro dele, é nele que somos gerados verdadeiramente, plenamente.

O profeta Jonas disse que não queria pregar para os seus inimigos porque sabia que o Senhor é Deus que tem compaixão - רַח֖וּםרחום – até mesmo dos inimigos de Seu povo (Jn. 4:2). O profeta Joel pede ao povo do Senhor que converta, que volte para Ele, pois Ele, o Senhor, é Deus que tem compaixão e por isso perdoa (Jl. 2:13). Em diferentes momentos, nós encontramos os salmistas louvando ao Senhor por causa da sua compaixão (Sl. 78:38; 86:15; 103:8; 111:4; 112:4; 145:8).

Deus é apresentado como compassivo nas três partes do cânon hebraico: Na tora - תּוֹרָה – (Êx. 34:6; Dt. 4:31), nos profetas - נְבִיאִים – (Is. 30:18; 49:15;  Jl. 2:13; Jn. 4:2; I Rs. 3:26) -  e nos escritos - כְּתוּבִים – (2 Cr. 30:9; Ne. 9:17, 31).

Como seria bom caso crêssemos nesse Deus cheio de compaixão, crer aqui no sentido de relacionamento, quem sabe assim, nós, também, como seus filhos, poderíamos revelar compaixão um para outro.

Deus se compara a uma mulher cheia de compaixão para com o seu bebê. Não há ternura maior. Pode uma mulher se esquecer ou não ter compaixão por um bebê gerado no seu ventre? Bem, mesmo que isso que parece impossível venha a acontecer, eu, o Senhor, todavia nunca me esquecerei de ti, eu sempre terei compaixão de ti (Is. 49:15).

Deus tem revelado essa compaixão de maneira radical, extraordinária, incomparável, através de Seu Filho, o Senhor Jesus, que deu a sua vida por nós. Não há compaixão maior.

Na LXX, a tradução da Bíblia hebraica para o grego, em 300 a. C, a palavra compaixão em hebraico - רַח֖וּםרחום – foi traduzida por - οἰκτιρμός.

Ao longo do Antigo Testamento e do Novo Testamento, nós podemos ver o sentimento, o agir de Deus cheio compaixão. Que o mesmo aconteça conosco, os seus filhos!

II - O Senhor é gracioso – A palavra no original hebraico traduzida por gracioso é חַנּוּן (ranun) - חנון (ranun) é um adjetivo e vem do verbo חָנַן (ranan) – חנן (ranun) – do substantivo חֵן (ren) - חן – (ren) que significa favor imerecido, graça.

Esta é uma palavra, uma ideia muito importante em toda a Bíblia.

A Bíblia ensina que Deus é gracioso. A graça é um favor que recebemos sem merecer, trata-se de um presente. O ensino sobre a graça está presente no Antigo e no Novo Testamento e tem várias lições para as nossas vidas.

Quando Jacó deixou a casa de seu sogro e encontrou-se com seu irmão Esaú, diz-nos a Bíblia que ele esperava alcançar graça aos olhos de seu irmão (Gn. 33:8), a quem ele havia enganado, ele não quer justiça, mas graça, favor imerecido. A palavra do texto original hebraico é חֵן (ren) - חן (ren) e do texto grego da LXX (Septuaginta) é  χάρις (káris). É a mesma palavra que diz que Noé encontrou graça aos olhos de Deus (Gn. 6:8).  Jacó espera encontrar graça aos olhos de seu irmão, espera o perdão, a reconciliação, a restauração da amizade.

Em Êxodo 33:12-17, Moisés faz referência a graça de Deus várias vezes. A graça de Deus é a razão da salvação de Israel, da salvação de Moisés, de sua escolha, de sua eleição para servir a Deus, e ao Seu Reino, a graça do Senhor é a razão da Sua presença no meio de Seu povo, ao nosso lado, ao longo da peregrinação aqui na terra. O mérito não se encontra no povo, em Israel ou em nós, mas no SENHOR que é gracioso - חַנּוּן ranun) – חנון – (ranun).

Em Isaías 30:18, o profeta diz que o SENHOR será gracioso com o seu povo - חָנַן – (ranan)- חנן (ranan) – Ele mostrará graça ao seu povo.

No Salmo 45:2, um salmo messiânico, o escritor bíblico fala do Rei em cujos lábios fluem graça -  חֵן (ren) - חן  - (ren) - e no texto grego da LXX – χάρις (káris).

A Bíblia nos ensina que Deus é rico em misericórdia. Jesus é Deus entre nós, nele podemos ver Deus cheio de graça e verdade. Através de seus ensinos, morte e ressureição temos salvação, vida, esperança. Pela graça sois salvos mediante a fé, disse Paulos em Efésios 2:8, e isto não vem de nós, é um dom, um presente, um favor, חֵן (ren) - חן (ren) - χάρις (Káris) de Deus. A salvação, o perdão, a paz são presentes de Deus, tudo é graça, e como presente tudo o que você precisa fazer é receber.

Para receber graça é importante reconhecer que temos necessidade dela. Jacó sabia que precisava da Graça de seu irmão Esaú. Ester sabia que precisava de Graça por parte do rei da Pérsia, Assuero, para não morrer nas mãos de seus inimigos (Et. 8:5). Precisamos reconhecer que precisamos da Graça de Jesus para nos libertar das trevas, do pecado, da tristeza, para nos libertar de coisas deste mundo, pensamentos e sentimentos de ódio, de inveja, ganância, ciúmes entre outros que trazem dor, morte para nós e para os outros. Abra o seu coração para receber a graça de Deus. Porque onde há muito pecado, imperfeição, só a graça. A graça nunca será derrotada pelo pecado. Onde abundou o pecado, superabundou a graça (Rm. 5:20). A graça é o poder de Deus que nos dá a vitória contra o mal que há em nós, o nosso pecado e o pecado dos outros contra nós – A minha graça te basta, pois o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza (II Co. 12:9).

Em Provérbios 1:9 diz que uma pessoa sábia tem uma coroa, um diadema de graça - חֵן (ren) -  חן (ren) - χάρις  - na sua cabeça, sinal de honra.   

Quando vemos a graça de Deus podemos, também, ver a sua glória: כָּבוֹד   (kavôd) - כבדך  (kavôd) δόξα (dóxa), que aponta para o seu poder, o seu favor, a sua presença graciosa e benfazeja. Foi isso que Moisés pediu a Deus – Mostre-me a tua glória (Êx. 33:18). Foi isso que Deus revelou em Jesus (Jo. 1:14). Isaque perguntou ao seu pai, Abraão, onde estava o cordeiro, pois ele podia ver ali o fogo e a lenha; o altar estava ali, mas onde estava o cordeiro? (Gn. 22:7). A resposta está no Novo Testamento: Jesus é o cordeiro (Jo.1:36). No Novo Testamento temos o cumprimento das promessas de Deus, de Sua Palavra, na pessoa do Senhor Jesus Cristo.

III - O Senhor é tardio em irar (Êx. 34:6; Sl. 103:8; Pv. 14:29; Dn. 4:2; Na. 1:3)

A Bíblia fala sobre a ira de Deus. Há pessoas que não entendem a ira de Deus. Creio que quando comparamos a ira de uma mãe com a ira de Deus, temos uma chance de compreender melhor esse assunto.

Uma mãe (ou pai) se ira contra seu filho que mente para ela (ou ele) ou minta para o seu irmão; ou que roube dela (ou dele) ou de seu irmão. Como uma mãe ficaria indiferente com seu filho que age dessa maneira? Como ela poderia ficar indiferente com seu filho que mente e rouba do seu irmão, da sua irmã?  A ira da mãe nesses casos é sinal de sua justiça e de seu amor por seu filho. Assim, também, é o nosso Deus. Sua ira é uma expressão de seu amor e de sua justiça. A ira de uma mãe não é algo ruim. Assim também a ira de Deus não é uma coisa ruim. Deus é bom o tempo todo. A ira de Deus é expressão de sua justiça e seu amor por nós.

A ira de Deus não significa que ele se encontra descontrolado emocionalmente ou mentalmente. Esta é uma compreensão, um conhecimento errado de Deus. A Ira de Deus é uma expressão de seu caráter, de seu amor e justiça. Em tudo que Deus faz, ele se expressa integralmente. Quando Deus expressa sua ira, ele não se despe de seu amor e justiça. Ele não se descontrola emocionalmente, mentalmente.

Mas, se nós erramos, cometemos pecado contra Deus e contra o próximo e nos arrependemos, Deus nos perdoa por causa de seu grande amor. E, por causa desse amor de Deus, de nossa fé nesse amor do Senhor, que nós não temos medo da ira de Deus, do julgamento de Deus. Este é o sentido do texto bíblico o amor lança fora o medo (I Jo. 4:17-19).

Deus me ama, apesar de eu ser um pecador. Deus se ira contra mim, porque ele quer o melhor para mim, e quer que eu saiba que os meus erros contra o meu próximo e contra mim, ferem o caráter de Deus, vão contra ele, que é justo e bom para com todos.

É um erro pensar que o Deus do Antigo Testamento é o Deus da ira e o Deus do novo Testamento é o Deus do amor. Há apenas um Deus na Bíblia e Ele é o Deus que se ira e que ama e que é justo e tem prazer em perdoar não em punir. Deus prova o seu amor para conosco pelo fato de Jesus Cristo ter morrido por nós, sendo nós ainda pecadores (Rm. 5:8). Ele é longânimo e não quer que ninguém se perca, mas que todos se arrependam e sejam perdoados, salvos (II Pd. 3:9).

Existe a ira de Deus e há, também, o amor de Deus. E, esses dois atributos não são contraditórios.

Em interessante observar aqui em Êxodo 34:6 e em muitas outras passagens relacionadas, a Bíblia ensina que Deus é compassivo, gracioso e, também,  é tardio em irar. O que isso significa? Isso significa que Deus é longânimo, paciente, ele é tolerante.

A ira de Deus se expressa no tempo e na eternidade, é isso que as páginas da Bíblia nos ensinam. E não apenas em relação a sua ira, mas ao seu amor também, ele tem dimensões temporais e eternas. Quando Jesus, o filho de Deus, morreu por nós na cruz, temos ali, então, a revelação de maneira mais radical do amor e da ira de Deus contra toda a impiedade e injustiça, temos a revelação do seu amor em favor de todos os pecadores. A ira de Deus tem a ver com o julgamento de Deus. Em Cristo, temos o julgamento contra o pecado. Jesus sofrendo e morrendo por nós na Cruz. Mas ali, também, temos o amor de Deus. Por isso, quando cremos no amor de Deus revelado na Cruz por Cristo Jesus sofrendo por nós, morrendo por nós, pagando o preso de nossas mentiras, de nosso egoísmo, vaidade, etc; aprendemos que essas coisas são erradas e precisamos nos arrepender delas todos os dias, e, quando nos arrependemos e cremos no amor de Deus em seu perdão, esta fé neste amor do Senhor, lança fora o medo da ira de Deus (I Jo. 4:16-18).

A ira de Deus não é necessariamente algo contra nós, mas contra algo que fazemos que ele não tolera: a injustiça, o egoísmo, a arrogância, o mal. Pois, ele sabe que esse mal que praticamos nos destruirá e ele nos ama tanto que não deseja isso. Assim sendo, acabamos colhendo o que semeamos, sofrendo as consequências de nossos erros, e ele permite que isso aconteça, pois seria algo ruim para nós, para o mundo, caso mesmo plantando o mal nós pudéssemos colher o bem, isso é, você pode plantar erva, espinho e mesmo assim vai colher feijão e arroz.

Qual é a palavra hebraica usada na Bíblia para ira? A palavra na Bíblia hebraica para ira é: אַפַּ֖יִם - אפים de אַףאף  -que significa: Nariz.  (A Bíblia diz que Deus tem um grande nariz, o que significa dizer que demora muito tempo para ficar completamente vermelho, ardendo de raiva).

Em Gênesis 39:19, diz que Potifar ficou irado contra José, ou seja, acendeu sua ira contra José, quando ele soube que José havia tentado seduzir sua esposa. A palavra traduzida por ira é אַףאף  - A ira dele é: אַפֹּֽואפו – O verbo: acender, antes da palavra ira é: חָרָהחרה - Literalmente, a tradução seria: Potifar ficou com seu nariz vermelho, ardendo, pegando fogo: וַיִּ֖חַר אַפֹּֽו  - אפו  ויחר -

Assim sendo, na Bíblia, em hebraico, quando uma pessoa fica irada, seu nariz fica vermelho, ardendo, pegando fogo. Mas, a Bíblia diz que Deus, o Senhor tem um longo nariz, um nariz grande: אֶ֥רֶךְ אַפַּ֖יִם - ארך אפים custa, demora muito se queimar. A tradução: Deus, o Senhor é longânimo, paciente, tolerante é uma ótima tradução. Às vezes pensamos que o Senhor não está vendo, não está se importando como mal que os outros ou nós estamos fazendo, mas esta é uma leitura errada de Deus, de quem ele é. Na verdade, Deus, o Senhor é tardio em irar, ele é paciente, longânimo e espera que você e eu nos arrependamos do mal que estamos praticando e recebamos dele, através de Jesus Cristo, o Seu Filho, o perdão, a salvação o seu amor e não a sua ira.

A verdade é que Deus, o Senhor é compassivo, gracioso e tardio em irar-se. Precisamos amar a verdade, entender a verdade, crer na verdade e andar na verdade. Jesus perguntou aos seus ouvintes: “Por que vos digo a verdade, não me credes° (Jo. 8:45). Creia na verdade, a verdade é Cristo, ela o libertará (Jo. 8:32).

Oremos ao Senhor, pedindo-o para que nos ajude a não nos esconder da verdade, a não taparmos os ouvidos à verdade, a não fecharmos os olhos para a verdade, mas a entende-la corretamente a verdade sobre Deus, quem ele é. Amar a verdade, ensiná-la com paciência e misericórdia, e a vive-la com fé e humildade. E, a verdade é que Deus é compassivo, gracioso e tardio em irar.

IV - O Senhor é grande em misericórdia – sua misericórdia é abundante, nunca se esgota. No Hebraico a palavra misericódia, amor incondicional, amoda relacionado à aliança,  é: - חֵסֵד - (lê-se: rressed).

Na verdade, a palavra hebraica que foi traduzida por misericórdia é: חֶ֥סֶדחסד (lê-se: rressed) - é uma palavra muito difícil de ser traduzida. Esta é uma palavra em hebraico que tem a ideia de amor, mas amor leal, duradouro, sofredor, tolerante, totalmente comprometido. Em algumas versões, a título de exemplo, nós temos as seguintes traduções: amor, bondade, beneficência, benevolência, fidelidade, benignidade, graça. Este é um amor que tem as seguintes marcas: cuidar, responsabilidade, respeito. A tradução ou explicação do significado da palavra hebraica חֶ֥סֶדחסד – requer muitas outras palavras.

Podemos ver na Bíblia tal amor na história de Rute em relação a sua sogra Noemi. É exatamente isso que o texto bíblico fala sobre o caráter de Rute (Rt. 3:10). O texto diz que Rute mostrou  חֶ֥סֶדחסד – na Bíblia LXX: ἔλεός - para com sua sogra que não tinha coisa alguma para oferecer a ela em troca. Podemos ver que a misericórdia de Rute para com Noemi não se encontra apoiada nas expectativas das vantagens, dos benefícios que Noemi poderia lhe oferecer. Misericórdia é algo que pertence ao caráter de Rute. Ela revela misericórdia em seus relacionamentos porque ela é misericordiosa, isto tem a ver com ela mesma. Esta palavra:  חסד – misericórdia – aparece três vezes no livro de Rute (Rt. 1:8; 2:20; 3:10). No livro de Rute e em toda aprendemos que חסד – misericórdia de Deus não termina com a morte: O Senhor não deixou de lado sua bondade tanto pelos vivos como pelos mortos (Rt. 2:20).

Quando Jacó voltou para a terra da promessa, ele não se encontrou apenas com seu irmão Esaú, que lhe revelou graça (Gn. 33:8-9) – חַנּ֑וּןחנוןχάρις; ele se encontrou, também, com o Senhor, a quem orou, dizendo: Sou indigno de todas as tuas misericórdias - הַחֲסָדִים֙החסדים  (Gn. 32:9-10). Jacó estava certo, ele era indigno de todo esse amor incondicional de Deus para com ele, esse amor leal, duradouro, sofredor, etc. Esta história do amor de Deus para com Jacó, ela continua na história de Israel ao longo do Antigo Testamento, e ela continua para com a sua Igreja, para conosco, ao longo do Novo Testamento. Ao longo de toda a história da revelação, ao longo da história da salvação, nós encontramos um Deus cujo amor é assim: leal, duradouro, sofredor, tolerante, totalmente comprometido...para com um povo que é infiel, desobediente, etc, etc, que através de suas ações, emoções, pensamentos, se revelou duvidar de Deus ser capaz de cumprir as suas promessas, a sua Palavra.

Ao longo da peregrinação do povo de Deus no deserto, Moisés pediu ao Senhor que perdoasse o seu povo segundo a grandeza de sua misericórdia (Nm. 14:19) - חֶ֥סֶדחסד – Moisés pede o perdão de Deus não invocando o caráter do povo, mas o caráter de Deus – Tua Misericórdia. חַסְדֶּ֑ךָחסדך

Deus quer que nós, seu povo, respondamos a ele com amor, misericórdia, com a mesma lealdade, compromisso, fidelidade. Porém, mesmo quando nós não agimos assim, o Senhor permanece fiel.

O profeta Oseias compara o amor do povo do Senhor como um orvalho, vapor, névoa, neblina, que aparece aqui agora, mas em pouco tempo desaparece (Os. 6:4).

Em Êxodo 34:6, o texto diz que a misericórdia do Senhor é grande – רַב – abundante, um adjetivo que acrescenta uma qualidade ao substantivo - וְרַב־חֶ֥סֶד  – ורב־חסד -

O profeta fala assim do povo do Senhor para contrastar com o amor de Deus. No Salmo 136, por 26 vezes, o salmista diz em alto e bom som:  a misericórdia do Senhor/o seu amor é eterno, dura para sempre - לְעֹולָ֣ם חַסְדֹּֽו - לעולם חסדו  e no Salmo 63:3, o salmista disse para Deus: “a tua misericórdia - חֶ֥סֶדחסד – é melhor que a vida eu te louvarei”.

A despeito da infidelidade de seu povo e do mundo em geral, o nosso Deus continua com sua misericórdia estendida a todos os homens, em todos os lugares, e em todos os tempos, esperando que eles se convertam, voltem para ele. Sua misericórdia foi revelada a nós, aos homens, através de seu filho, Jesus Cristo. Nele, em Jesus, encontramos um Deus incomparável, leal, misericordioso, que quer cuidar de nós, ele se sente responsável por nós, mas ele nos respeita. Através de Jesus, de seus ensinos, sua morte e ressurreição, Deus nos oferece um futuro diferente para nós e nossa família, para o mundo inteiro. Um futuro cheio de esperança, fé, amor e alegria. Deus faz isso, porque ele é assim, ele é misericórdia. Deus espera que depois de conhecermos sua misericórdia, possamos revelar misericórdia aos outros.

A palavra misericórdia - חֵסֵד – foi traduzida para a Septuaginta por ἔλεος – esta palavra é muito importante no Novo Testamento. Ela aparece no final da Parábola do Samaritano (Lc. 10:36-37). Jesus perguntou para o intérprete da Lei qual dos três personagens da história havia procedido de maneira correta: o sacerdote, o levita ou o samaritano? E o homem que conhecia a Lei em termos cognitivos, mas não afetivos ou práticos, respondeu para Jesus, de acordo com o evangelista Lucas: Aquele que usou de misericórdia. E Jesus, então, lhe disse: vai e faça o mesmo. Esta palavra: ἔλεος, aparece 27 vezes no Novo Testamento e mais de 230 vezes no Antigo Testamento Grego, na LXX.  O verbo traduzido por: amar em Lucas 10:27, no grego é ἀγαπάω de onde temos o substantivo: ἀγάπη. Esta palavra, também, tem tudo a ver com o substantivo חֶ֥סֶדחסד – no Antigo Testamento que trata de Deus.

No Sermão da Montanha, Jesus disse: Felizes, abençoados são os misericordiosos, pois eles alcançarão misericórdia (Mt. 5:7). No Salmo 23, o Rei Davi disse: “certamente que a bondade e a misericórdia - חֶ֥סֶדחסד – me seguirão todos os dias da minha vida. A misericórdia do Senhor - חֶ֥סֶדחסד – é multidimensional/pluridimensional – tem altura, profundidade e largura, alcança a vida toda, no tempo e na eternidade. A misericórdia tem dimensões eternas porque Deus é misericórdia, assim como o apóstolo João disse que Deus é amor: ἀγάπη (I Jo. 4:8), podemos, também, dizer que Deus é - חֶ֥סֶדחסד – Não há limites e nem fim, trata-se de algo sem paralelo, por isso é tão difícil de ser compreendido por nós. A terra está cheia da misericórdia do Senhor - חֶ֥סֶדחסד – (Sl. 33:5).

A misericórdia do Senhor é não apenas temporal, mas eterna; não apenas para alguns, mas para todos, isto é, ela é abrangente, inclusiva e não exclusiva; ela é acessória, cosmética na pessoa de Deus, mas essencial, natural, básica, intrínseca; ela não dura apenas pouco de tempo, mas permanece para sempre (Sl. 118:29), a despeito de nossa infidelidade, nosso amor passageiro (Os. 6:4), o seu amor é fiel e eterno para sempre para conosco (Os. 2:19).

Esta ideia que חֶ֥סֶדחסד – traz de algo que vai além dos limites tem uso para coisas ruins também, é o caso de incesto, o que significa que a pessoa com sua ação passou dos limites (Lv. 20:17).

Porém, no caso de Deus, a sua ressd passou dos limites. Ele é hesse, ele é misericórdia, ele é amor -  Θεὸς ἀγάπη ἐστίν (I Jo. 4:8). Ele passou dos limites de maneira radical. Ele deu seu filho único para morrer em favor dos pecadores. Ele amou de tal maneira, isto é, de uma maneira além do imaginável.

V – O Senhor é grande em verdade -   וֶאֱמֶֽתואמתרַב – grande, abundante (Jo. 3:33; 7:28; 14:6; 17:3; Is. 65:16; Jr. 10:10; II Cr. 15:3; Sl.31:5; etc).

O Senhor é abundante, grande em verdade. A verdade está presente em seu caráter, nunca falta, nunca acaba.

Isto significa que o Senhor é confiável 100%. Não há mentira, falsidade em Deus, em sua Palavra, em suas promessas. Este atributo de Deus, esta característica, esta propriedade de Deus, tem a ver com certeza.

Em um mundo de tantas incertezas, mentiras, falsidades, como é bom saber que temos um Deus que é abundante em verdade.

Várias propostas têm surgido para a construção de uma teologia Bíblia. Eis alguns exemplos:

 

  1. Deus e sua relação com o mundo e com o homem.
  2. Deus, sua revelação e a ética para um mundo em constante transformação.
  3. Deus e a justiça.
  4. Deus e Paz. 
  5. Etc.
SUGESTÃO BIBLIOGRÁFICA 
 
GERSTENBERGER, Erhard S. Deus no Antigo Testamento. São Paulo: Aste, 1981.
HASEL, Gerhard F. Teologia do Antigo Testamento: Questões fundamentais no debate atual. Rio de Janeiro: Juerp, 1987. 
MORAES, Reginaldo Pereira de. Introdução à Teologia Bíblica do antigo Testamento. Curitiba; Intersaberes, 2018. (Serie Conhecimentos em Teologia)
VON RAD, Gerhard. Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Aste, 1986. V.1-2.
WOLFF, Hans Walter. Antigo Testamento: Introdução aos eventos e aos métodos de estudo. São Paulo: Paulinas, 1978.
EICHRODT, Walther. Teologia del Antiguo Testamento. Madrid: Cristiandad, 1975. V. 1 e 2.
CRABTREE, A. R. Teologia do Velho Testamento. 2ª Ed. Rio de Janeiro: Juerp, 1977.
KAISER JR, Walter C. Teologia do Antigo Testamento. 2ª ed. São Paulo: Vida Nova, 1984.