Uma breve reflexão na obra Lucas-Atos

Data publicação 23/11/2020

Uma breve introdução ao Evangelho de Lucas

Pastor Washington Roberto Nascimento

O Evangelho de Lucas é o primeiro volume de uma obra de dois volumes, sendo o segundo: O Livro de Atos. O autor é um só, o que se pode verificar com base no início de ambos os livros (Lc. 1:1-4; At. 1:1-2), e o seu nome é Lucas, conhecido como o médico amado (Cl. 4:14), companheiro e amigo do apóstolo Paulo (II Tm. 4:11).

O ideal seria lermos o Livro de Atos logo depois do Evangelho de Lucas. O seu escritor quer nos mostrar como Deus estava em Cristo Jesus, como os discípulos de Jesus se transformaram em uma Igreja distinta do judaísmo, triunfante, conhecida como cristianismo.

Lucas conta a história de uma maneira singular. É o único escritor não judeu na Bíblia. Ele se revela um cientista cristão e sua metodologia e propósito são expressos de maneira clara e encantadora. Ele estudou com todo o cuidado as coisas que aconteceram relacionadas a pessoa de Jesus e procurou registrar todas em ordem.

A obra de Lucas tem um tema teológico como sua força geradora. Sua obra não se preocupa com uma narrativa cronológica. Por ser um escritor não judeu, o único na Bíblia, podemos ver claramente seu interesse pela mensagem de Jesus alcançando os não judeus. Assim como Mateus tem uma preocupação em agradar os destinatário, judeus; Marcos, tem a preocupação de agradar aos romanos; João, uma preocupação em agradar a Igreja que sofria com os ataques do gnosticismo que negava a divindade de Jesus; Lucas tem a preocupação de mostrar como o Cristianismo é diferente do judaísmo e como Jesus amava os gentios e queria alcança-los.

Ele começa com o antecessor de Jesus, que lhe preparou o caminho, João Batista, seu primo. Já aqui, há informações que somente encontramos neste Evangelho. Os pais de João Batista, Zacarias e Ana; o cântico singular de Maria, a mãe de Jesus; os pastores no campo; a manjedoura; a ida de Jesus a Jerusalém com a idade de 12 anos e sua conversa com os mestres da Lei, etc.

Lucas apresenta a genealogia de Jesus indo até Adão, o primeiro homem e prossegue indo até Deus. Jesus é o segundo Adão, este substantivo próprio é também um substantivo comum que significa homem. Jesus é  o homem perfeito. Ele veio resgatar os homens que viviam na marginalidade, distantes e excluídos.

Os registros de Lucas (e de Mateus também) sobre o caráter miraculoso envolvendo o nascimento de Jesus têm seus paralelos entre os Gregos e os Romanos.

Muitas pessoas estão familiarizadas com as histórias nos evangelhos do Novo Testamento de Lucas e Mateus sobre a concepção e o nascimento de Jesus. Mas o que é menos conhecido é como essas histórias são comuns quando se contam a vida de grandes homens do tempo de Jesus ou antes. Os antigos escritos gregos e romanos compartilham muito com os relatos do evangelho.

Os evangelhos de Lucas e Mateus afirmam que o nascimento de Jesus foi predito com antecedência. Mateus cita o profeta Isaías para estabelecer o nascimento de Jesus como uma promessa divina que inauguraria um tempo de paz e justiça.

Virgílio, escrevendo no início do século I a.C, escreveu sobre uma criança prometida, a descendência dos deuses, que traria uma era de ouro de paz e prosperidade ao Império Romano - em outras palavras, o imperado Augusto César. O nascimento de Augusto César, também, foi predito por presságios, de acordo com o historiador romano Suetônio (Nasc. 69 a. C). Ocorrências astronômicas incomuns eram entendidas como presságios divinos nas culturas grega e romana, então não é de se admirar que o nascimento de Jesus - como o de Augusto - foi descrito como importante usando uma estrela milagrosa, anjos, uma virgem, Deus, o Espírito Santo nos evangelhos de Mateus e Lucas.

O nascimento de Alexandre o Grande também teve presságios meteorológicos em torno dele. Plutarco nos diz que Filipe e Olímpia, pais de Alexandre, receberam sonhos dos deuses anunciando o nascimento de Alexandre. Olímpia sonhou que seu útero foi atingido por um raio, enquanto Filipe sonhou que colocou um selo no útero de sua esposa na imagem de um leão. Mais significativo, porém, é o relato de que Filipe avistou uma serpente divina dormindo ao lado de sua esposa, o que ele interpretou como um sinal de que ele próprio deveria evitar dormir com ela, uma vez que era claro que ela deveria conceber de um divino em vez de humano fonte.

Assim como Mateus registra as tentativas de Herodes de impedir o nascimento da criança profetizada matando todos os bebês recém-nascidos, Suetônio conta um relato semelhante de líderes romanos que tentaram impedir a ascensão de Augusto ao poder ordenando que nenhum filho do sexo masculino fosse criado. Em Mateus, Jesus e sua família escapam do “Massacre dos Infantes” fugindo para o Egito - enquanto em Suetônio (como na história de Moisés) pais e futuras mães frustram os planos assassinos, no caso romano, impedindo que o decreto fosse oficialmente registrado e executado. 

Embora Mateus e Lucas traçam a linhagem de Jesus por meio de seu pai não biológico José, Jesus é descrito como filho do próprio Deus.

Augusto César também foi adotado por seu pai, Júlio César, e também se considerava descendente de um deus - Vênus Genetrix. Augusto traçou sua linhagem até Vênus (a deusa do amor e da beleza) por meio de seu ancestral Rômulo, o lendário fundador de Roma. Rômulo e seu irmão gêmeo Remo foram concebidos pela virgem sacerdotisa depois que o deus Marte a engravidou. Esta sacerdotisa, como diz Virgílio, era descendente de Vênus por meio de seu ancestral Enéias, o filho amado de Vênus.

A linhagem divina de Alexandre o Grande foi reforçada quando ele cresceu. Assim como o Jesus adulto foi publicamente reivindicado por Deus como seu filho em todos os quatro relatos do evangelho, o pai de Alexandre, Zeus Amon, confirmou a identidade divina de seu filho. Plutarco nos conta que quando Alexandre se aproximou de um oráculo egípcio para perguntar se ele vingou o assassinato de seu pai, o sacerdote o fez reformular seu pedido, já que seu pai não era um homem mortal, e se dirigiu a Alexandre em linguagem oracular como "Ó filho de Zeus" .

Um dos lugares mais comuns para encontrar histórias de nascimentos milagrosos é na vida de heróis, muitas vezes nascidos da união entre um deus e um ser humano. Hércules, talvez o mais famoso dos heróis gregos, é filho de Zeus e da mortal Alcmena, por exemplo. Zeus se disfarçou de marido de Alcmena para levá-la para a cama com ele. A linhagem divina de que Hércules desfrutava permitiu-lhe realizar muitas façanhas maravilhosas.

Da mesma forma, Asclépio, filho de Apolo, resgatado do ventre de Coronis, foi dotado de habilidades de cura milagrosas e mais tarde foi considerado divino por seus próprios méritos.

Mateus e Lucas e até mesmo João narram o nascimento de Jesus (sua encarnação) como algo divino, extraordinário, milagroso. A ideia de tal nascimento nascimento milagroso de Jesus pode ter tido como propósito explicar as afirmações do Evangelho sobre a capacidade dele de operar milagres, ensinar coisas sublimes, curas e outros feitos maravilhosos.

Os capítulos iniciais de Lucas (1, 2 e 3) estão dentro de contexto cultural grego-romano-judaico muito conhecido no primeiro século, apresentando os elementos sobrenaturais relacionados a pessoa de Jesus.

Vamos fazer algumas perícopes, isto é, apresentar alguns extratos de alguns textos bíblicos do Evangelho de Lucas e de Atos.

A partir do capítulo 4, nós temos o ministério de Jesus na Galileia. Lucas destaca o discurso de Jesus na sinagoga em Nazaré e como ele foi parar em Cafarnaum (Lc. 4:1-31). É interessante observar que Lucas deixa passar a informação de que ele trouxe esse discurso de Jesus de um contexto diferente. Pois, em Lucas 4:23 somos informados que Jesus já havia estado em Cafarnaum, que Marcos e Mateus apresentam como sendo a cidade onde Jesus morava na Galileia. O discurso de Jesus na sinagoga em Nazaré é apresentado primeiro por Marcos em um contexto diferente de Lucas e numa extensão menor (Mc. 6:1-6). A mesma coisa podemos falar do registro de Mateus do mesmo discurso. Na verdade, Mateus se limitar a importa o registro feito por Marcos (Mt. 13:53-58).

No registro feito por Lucas do início do ministério de Jesus, vale a penas destacar o seguinte:

1. A expressão: Jesus foi a sinagoga como era o seu costume (Lc. 4:16). Quais eram os hábitos de Jesus? O hábito nasce da repetição de uma ação. Uma ação nasce de escolha feita. A escolha nasce de uma decisão mental, emocional. Então, nós temos: você tem o seu pensamento/sentimento, você faz a sua escolha com base nisso, sua escolha mental/emocional produz a ação, a repetição da ação produz o hábito, o hábito produz o destino. Jesus vai à sinagoga, ele vai ao templo, ele lê a Bíblia, ele medita sobre ela, ele sabe ler. Lucas é o único que fala que Jesus era levado ao templo pelos seus pais (Lc. 2:22; 41; etc).

2. A expressão: O Espírito do Senhor está sobre mim (Lc. 4:18). O Espírito Santo tem um papel muito importante na obra de Lucas, tanto no Evangelho quanto em Atos. Deus disse a Zacarias que seu filho com sua mulher Isabel, João Batista, seria cheio do Espírito Santo (Lc. 1:11-15). O anjo Gabriel disse à Maria que o Espírito desceria sobre ela (Lc.  1:26-37). No batismo de Jesus o Espírito Santo desceu sobre ele (Lc. 3:22). Jesus, cheio do ES, é levado pelo Espírito Santo ao deserto para uma batalha (Lc. 4:1). Na sinagoga, no início de seu ministério, de acordo com Lucas, ele pega a Bíblia, lê o texto que fala: O Espírito do Senhor está sobre mim (Lc. 4:18). Etc. Jesus é o personagem principal juntamente com o Espírito Santo tanto no Evangelho de Lucas quanto em Atos.

3. A agenda do ministério de Jesus em Lucas 4:18-19 é a mesma que encontramos no Magnificat (A canção, a oração de Maria – Na versão em Latin, Lucas 1:46 - nós temos: et ait Maria magnificat anima mea Dominum) em Lucas 1:46-53. Jesus faria uma reviravolta: ajudaria os pobres, mandaria os ricos embora de mãos vazias, tiraria do trono os poderosos, orgulhosos, presunçosos, e elevaria os humildes, alcançaria os estrangeiros, os gentios, os não religiosos ao invés dos religiosos. Assim como Elias e Eliseu foram enviados aos gentios, assim acontecerá comigo, como o meu reino, a minha mensagem, as minhas bênçãos (Lc. 4:24-27). Esta agenda de Jesus se cumpre plenamente no Livro de Atos, é claro que foi com muita dificuldade por causa dos apóstolos, da Igreja em Jerusalém. Todas as vezes que Jesus é rejeitado, não apenas no Evangelho, mas em Atos também, as bênçãos do Evangelho vão em direção aos gentios (Confere com Atos 11:19-26; 8:1-4; 10:1-48).  O Evangelho foi levado aos nãos judeus por Jesus, por Estevão, Felipe, Pedro, Paulo, Barnabé, mas principalmente por cristãos anônimos, possivelmente gregos, como Estevão e Felipe. Mas, Lucas, sem negar o fato de que cristãos anônimos iam pregando o Evangelho de Cristo aos gentios, ele conta a história de Pedro levando meio contra gosto a mensagem para Cornélio, um gentio, e o problema que isso gerou na igreja de Jerusalém (Atos 11:1-3). A ação do Espírito é destacada pelo escritor da obra Luca-Atos:

O Espírito na vida das pessoas ligadas a Jesus: João Batista cheio do Espírito Santo (Lc. 1:15); Zacarias cheio do Espírito Santo (Lc. 1:67); Isabel cheia do Espírito Santo (Lc.1:41); Maria cheia do Espírito Santo (Lc. 1:35); Simeão cheio do Espírito Santo (Lc. 2:25-32).

O Espírito Santo na vida de Jesus:  Jesus batizará com Espírito Santo e Fogo (Lc. 3:16); Jesus orando no batismo e o Espírito Santo descendo sobre ele (Lc. 3:20-21); Jesus cheio do Espírito (Lc. 4:1); Jesus guiado pelo Espírito (Lc. 4:1);  Jesus no Poder do Espírito Santo (Lc. 4:16); Jesus ungido pelo Espírito Santo (Lc. 4:18).

O Espírito Santo na vida da Igreja: O Batismo no Espírito Santo (At. 1:1-5); o Poder do Espírito Santo (At. 1:8); os líderes da Igreja, apóstolos, e toda a Igreja cheios do Espírito Santo (At. 2:4); os diáconos cheios do Espírito Santo (At. 6:3, 5); Estevão cheio do Espírito Santo (At. 7:55); guiado pelo Espírito Santo (At. 8:29); o Espírito na vida dos samaritanos (At. 8:14-17);  o Espírito Santo na vida dos gentios (At. 10:44-48); o Apóstolo Paulo é cheio do Espírito Santo (At. 9:10-17); o Espírito Santo separa o missionários na Igreja de Cristo (At. 13:1-2); a decisão da Igreja reconhecendo a ação do Espírito Santo (At. 15:8); o Espírito revelando a sua vontade na vida da Igreja (At. 16:6-10); o apóstolo Paulo espera que as pessoas recebem o Espírito Santo quando creem (At. 19:1-2).

A obra de Lucas-Atos termina com uma referência ao Espírito (At. 28:25).

 

4. Rejeição, perseguição e morte – Ao apresentar a rejeição, sua perseguição e morte, como consequência da rejeição e perseguição, Lucas deixa claro que isso é o que acontecerá com Jesus ao longo de seu ministério e não apenas com ele, mas com os seus discípulos, com sua igreja. Ao colocar esse fato no início do seu trabalho, de sua obra, Lucas está informando-nos que na verdade ele não está preocupado com a ordem cronológica do evento, mas apenas com sua organização mental. Ele está prenunciando aqui aquilo que vai acontecer até o fim de sua obra (Lc. 4:24-29). Foi isso que aconteceu com Estevão, que era grego, falava grego, e, certamente falava hebraico também. Mas, a ideia aqui é o padrão, a estrutura literária e o conteúdo teológico de Lucas em Atos 7:1-8:4 com Lucas 4:24-29. Lucas usa uma expressão de Atos 8:4 em Atos 11:19, ao assim fazer, ele revela-nos que está fazendo uso de uma fonte que dá suporte a sua estrutura literária e ao seu conteúdo teológico.

Em Atos 6:11 e 13, o escritor, Lucas, diz que as pessoas fizeram falsas acusações contra Estevão. Pois, eles disseram que Estevão falava contra a Lei de Moisés, contra Deus e contra o templo. Bem, na verdade, Estevão não falava a favor do templo, das pessoas que ali adoravam e nem da adoração que ali acontecia. Estevão não tinha a mesma interpretação de Moisés, nem tinha o mesmo Deus que aqueles líderes religiosos tinham. Estevão falava contra o deus daqueles líderes religiosos, a interpretação que eles davam à Tora e o templo por causa dos religiosos que ali mandavam e por causa das coisas que eles ali faziam.

Quando ouvimos o discurso de Estevão no capítulo 7, aprendemos que Estevão tinha uma leitura correta do Antigo Testamento, da história da salvação, e compreendia o link, a ponte, entre o Antigo e o Novo Testamento na pessoa de Jesus (At. 7:35). Assim como os israelitas no passado rejeitaram Moisés (At. 7:35), eles rejeitam Jesus. É isso que os israelitas odeiam ouvir. Mas é isso que Lucas mostra com precisão. A libertação chega (At. 7:30-34) da parte de Deus, mas o povo rejeita. E é assim que Lucas mostra como Jesus é cumprimento da Palavra (At. 8:37). É claro que Moisés pensava em Josué como aquele que Deus levantaria depois dele, mas Estevão e o demais escritores do Novo Testamento estão certos de que essa pessoa é Jesus.

Estevão, no capítulo 7 de Atos, continua pregando falando de Moisés, da apostasia de Israel, e da tenda do testemunho, isto é, do tabernáculo (At. 7:39-45). Estevão diz que os filhos de Israel tomaram o tabernáculo de um falso deus, Moloque, e logo em seguida diz que Deus, deu ordens a Moisés para que fizesse um tabernáculo segundo o modelo que tinha visto (At. 7:42-44). Esta tenda ou tabernáculo foi usado em Israel até os dias do Rei Davi que quis edificar um templo para Deus, mas foi seu filho, Salomão que o fez. Estevão vai contando a história quando, de repente, surpreende a todos com uma brusca mudança de rumo: “Mas o Altíssimo não habita em templos feito por mãos de homens” (At. 8:48).

Embora as ideias da tenda, do tabernáculo e finalmente do templo tenham prosperado, os profetas, aqui e ali, criticavam o culto no templo, a adoração do templo, e o adoradores no templo. Estevão faz uso desta tradição profética que falava “contra o templo”, ele se alinha a essa tradição e prega com eloquência. Ele parecia agradar os seus ouvintes até um certo momento, mas não muito. Pois, ao longo de sua fala e deixava claro que a vocação do povo para rejeitar, perseguir, matar os líderes: Moisés, os profetas, Jesus (At. 7:35, 39, 51, 52).

É interessante observar que Estevão diz que a Lei foi dada por anjos (At. 7:53). É bem verdade que no Antigo Testamento, no livro do Êxodo, é dito que Deus escreveu a lei nas tábuas, Deus deu a lei e que ele falava face a face com Moisés (Êx. 33:11; 34:1).  Mas Lucas prefere fazer uso da interpretação em seus dias, defendida até apóstolo Paulo, que a Lei foi dada a Moisés por anjos (Gl. 3:19). Isso significa uma interpretação não literal do texto bíblico do Antigo Testamento. Estevão se alinha aos profetas que atacavam o templo e a todas as interpretações e texto do Antigo Testamento que revelavam um grau de autoridade da Lei e do Templo. Não há como negar a interpretação crítica de Estevão e de Lucas, o autor do terceiro evangelho e Atos, à Lei, e ao Templo. O apóstolo Paulo caminha na mesma direção de Estevão e Lucas.

O livro de Atos termina com essa mesma ideia: rejeição, perseguição e morte (At. 28;23-31). Essa rejeição por parte dos judeus não fez de Deus uma vítima. Os Seus planos se realizam. O Seu Evangelho, a Sua bênção alcançou os gentios e esse é um outro tema notório na obra Lucas-Atos. Aquele que estava distante, excluído, à margem, foi alcançado: o samaritano, o gentio, a prostituta, o ladrão, os leprosos, os endemoniados, os pobres, todos os perdidos, cegos e aleijados, todos os excluídos for alvos da graça de Deus revelada em Cristo Jesus. É disso que o escritor da obra Lucas-Atos quer mostrar. O Cristianismo não é Judaísmo.

Apesar de suas semelhanças com os outros Evangelhos sinópticos: Mateus e Marcos, a narrativa de Lucas contém muito que é único.

Cada um dos Evangelhos apresenta algumas histórias, e ensinamentos únicos, mas Lucas está particularmente repleto de parábolas interessantes e distintas. Só em Lucas podemos ler: A Parábola dos dois devedores (7:40-43); A Parábola do amigo à meia-noite (11:5-8); A Parábola do rico tolo (12:13-21);  A Parábola do empregado insensato que não sabe obedecer ordens (12:47-48); A Parábola da árvore estéril (13:1-9); A Parábola da moeda perdida (15:8-10); A Parábola do administrador desonesto (16:1-12); A Parábola do homem  rico insensível e Lázaro (16:19-31); A Parábola da viúva persistente (18:1-8); A Parábola do fariseu e do cobrador de impostos (18:9-14); A Parábola do filho pródigo (15:11-31); A Parábola do bom samaritano (Lc.10:25-37). Só Lucas regista a visita de Jesus à casa de Marta e Maria para jantar e os ensinos sobre ser e fazer (Lc.10:38-41); só ele fala da conversão de Zaqueu (Lc.19:1-10). Ele é o único Evangelho a dar conta da Ascensão de Jesus ao Céus (Lc.24:50-52).

Por muito tempo, Lucas foi o mais negligenciado dos Evangelhos. Mateus era o Evangelho mais popular na igreja primitiva, por causa de suas raízes apostólicas, seu escritor foi um apóstolo importante. João sempre foi muito considerado por causa de sua apresentação clara e direta de Jesus como Deus. Marcos veio a ser um importante Evangelho por ser considerado o mais antigo além de sua associação com o apóstolo Pedro. O Evangelho de Lucas, por ter sido escrito por uma pessoa que não conheceu Jesus na carne, e por ser um gentio, era desprezado. Este preconceito, graças a Deus, já foi vencido.

Mas para muitos estudiosos modernos, Lucas é um Evangelho profundo em termos de estrutura e de conteúdo. É extremamente atraente. Ele fala de uma maneira singular da inclusão dos gentios e de todos os que viviam marginalizados e desprezados pelo judaísmo e pelos seus líderes religiosos de então, no reino de Deus e, junto com sua sequência, o Livro de  Atos dos Apóstolos, Lucas, o nosso querido escritor, revela como o ministério de Jesus se tornou um movimento que mudou o mundo. Que você, querido amigo, querida amiga, também seja mudado, mudada, com o encontro do personagem principal da obra de Lucas: Jesus. Um forte abraço.

Pastor Washington Roberto Nascimento.