Uma breve reflexão sobre a celebração do nascimento de Jesus
Pastor Washington Roberto Nascimento
A celebração do nascimento de Jesus no dia 25 de dezembro provavelmente teve origem na Igreja Romana do século IV, de acordo com as festividades pagãs do solstício de inverno, em particular a festa romana do Natalis Solis Invicti – O Nascimento do Sol Invictus (Sol Inconquistável/Invencível), celebrada nessa data.
Natalis Solis Invictus significa "O Nascimento do Sol Invicto" ou "Sol Invencível" em latim, sendo uma divindade solar do Império Romano, oficializada pelo imperador Aureliano em 274 d.C., que simbolizava poder, eternidade e unificação, e cuja festa em 25 de dezembro, no solstício de inverno, foi adaptada pela Igreja para a comemoração/celebração do Natal – nascimento - de Jesus Cristo como a verdadeira luz.
O solstício de inverno é um fenômeno astronômico que marca o início do inverno e o dia mais curto do ano, com a noite mais longa, devido à inclinação da Terra em seu eixo, fazendo com que um hemisfério receba a menor quantidade de luz solar. Ocorre por volta de 20/21 de junho no Hemisfério Sul (Brasil) e 21/22 de dezembro no Hemisfério Norte, simbolizando para muitas culturas o renascimento e o começo de um novo ciclo, com dias começando a ficar mais longos após essa data.
O Hemisfério Norte é a metade da Terra localizada ao norte da Linha do Equador, abrigando grande parte da massa terrestre e da população mundial, incluindo continentes como América do Norte, Europa e Ásia, além de partes da África e América do Sul, com estações do ano opostas às do Hemisfério Sul, verão no Norte significa inverno no Sul e vice-versa.
O Hemisfério Sul é a metade da Terra ao sul da Linha do Equador, contendo grande parte da América do Sul, África, Austrália e Antártica, com verões de dezembro a fevereiro e inversão das estações em relação ao Norte, sendo mais aquoso e com clima moderado pela água, abrigando a maior parte do Oceano Pacífico, Atlântico Sul, Índico e Antártico. Possui uma proporção maior de água (80,9%) em comparação com o Hemisfério Norte, influenciando o clima.
Macapá, capital do Amapá, é cortada pela Linha do Equador, ficando em ambos os hemisférios. Boa Vista, capital de Roraima, é a única capital no Brasil que se encontra totalmente no Hemisfério Norte.
O Sol invicto (inconquistável/invencível) unificava cultos solares orientais, como o persa Mitra; o sírio Elagabal; etc. e romanos, sendo um dos deuses mais importantes na época, representando a força do Império Romano considerado inconquistável, invencível.
O primeiro registro da celebração do Natal – nascimento - de Jesus Cristo – em 25 de dezembro ocorreu em Roma, por volta de 336 d.C., durante o reinado do Imperador Constantino, consolidando a data para muitos cristãos.
Em meados do século IV, O Papa Júlio I (337-352) estabeleceu formalmente o dia 25 de dezembro como a data oficial da Igreja Romana para a celebração do Natal de Jesus.
Essa celebração tinha como objetivo converter pessoas ao cristianismo, tornando o cristianismo mais familiar e incorporando celebrações populares como a Saturnália, o festival mais antigo, em honra a Saturno, deus da agricultura, com muita comida, bebida, jogos e liberdade (inclusive para escravos).
Em essência, isto é, em resumo, em termos básicos, a data de 25 de dezembro foi uma escolha estratégica da Igreja Cristã do século IV para cristianizar as populares celebrações romanas do solstício de inverno e para aumentar o número de seus seguidores.
Os crentes no Senhor Jesus Cristo podem celebrar o Natal de Jesus em 25 de dezembro, mesmo sabendo que esta não é a data certa do nascimento dele. A data certa do nascimento de Jesus é desconhecida. Mas os discípulos de Jesus comemoram o Seu nascimento por causa da importância do significado teológico da Encarnação — Deus se tornou humano em Jesus — uma verdade que transcende qualquer data e que deve ser celebrada sempre, todos os dias, Deus conosco.
Há razões para o cristão celebrar o nascimento de Jesus com louvor, gratidão e alegria . As razões (as motivações) para tal comemoração são bíblicas e teológicas. O evento central é a chegada de Jesus - "Emanuel" - עִמָּנוּ אֵל – (lê-se: Imanuel) que significa: Deus conosco (Is. 7:14; Mt. 1:23; Jo. 1:14; 14:9;).
O nascimento de Jesus dá início a uma nova era, uma mudança monumental na história. É por isso que celebramos o seu nascimento. A data 25 de dezembro é apenas uma conveniência. O que conta mesmo é que ele nasceu.
Entendemos que o significado do nascimento de Jesus sobrepõe aos festivais romanos, aos seus deuses e a qualquer data.
Temos mantido a tradição dessa data porque sabemos da impossibilidade de saber a data exata, mas o fazemos de maneira consciente. A vida cristã não se baseia em um calendário religioso. Somo guiados pelo Espírito Santo de Deus e não por um calendário.
É claro que estamos conscientes dos atos importantes de Deus na história da salvação - Heilsgeschichte - a história humana tem sido o palco da atuação redentora de Deus. Este agir do Senhor encontra-se revelado, de forma notável, nas Escrituras (Antigo e Novo Testamento) e culminando, de maneira extraordinária e inigualável, em Jesus Cristo, seu nascimento, vida, morte, ressurreição e ascensão.
A fé de nosso viver se encontra na Palavra de Deus. Ela é a lâmpada para os nossos pés e luz para o nosso caminho (Sl. 119:105). Um dia, na história, ela se fez carne e habitou entre nós (Jo. 1:1-14). A fé no Deus que se fez carne, Jesus, vem pelo ouvir, e o ouvir a Palavra de Cristo, isto é, que pertence a Cristo, que procede dele, do Seu Espírito Santo (Rm. 10:17; II Pd. 1:21).
Os Evangelhos mostram que o nascimento de Jesus foi um evento histórico. Herodes, o Grande (37 a.C. a 4 a.C.), era o rei na região da Judeia, na terra de Israel (Mt. 2:1). César Augusto foi o fundador e o primeiro Imperador do Império Romano (27 a.C. até 4 d.C.), e sua ordem para que todos se registrassem em suas cidades de origem (Lc 2:1-3) foi o motivo da viagem de José e Maria a Belém, resultando no nascimento de Jesus ali, conforme as profecias (Mq. 5:2; Mt. 2:1; Lc. 2:4-6).
O nascimento, a vida, a morte e ressurreição de Jesus têm suas raízes no contexto histórico romano-judaico verificável do século I.
Historicamente o nascimento de Jesus aconteceu entre 6 e 4 a.C., coincidindo com o reinado de Herodes, o Grande, e os eventos do censo romano, por ordem de César Augusto.
Porém, os propósitos bíblicos/teológicos estão acima de uma narrativa histórica com uma cronologia estrita, com informações detalhadas de ano, mês e dia com rigor e precisão.
Em síntese e em termos essenciais, o Natal é uma celebração vital da Encarnação – O Verbo se fez Carne e habitou entre nós – Aquele que tinha a natureza de Deus, abriu mão de tudo e tornou-se semelhante a nós e servo de todos (Fp. 2:6-8). Usamos uma data tradicional – 25 de dezembro - para lembrar o dom de Deus, mesmo reconhecendo sua imprecisão histórica. E é nisso que os Evangelhos se concentram: no significado teológico, não na data do calendário. Jesus, o filho de Deus, veio nos salvar de nossos pecados (Mt. 1:21).
Todo o dia é natal. Todo o dia temos a oportunidade de transformar o nosso coração em uma Belém, em uma manjedoura.
Pastor Washington Roberto Nascimento.