Uma breve reflexão sobre a divisão do livro dos Salmos em cinco partes ou livros

Data publicação 26/08/2026

Uma breve reflexão sobre a divisão do livro dos Salmos em cinco partes ou livros

Pastor Washington Roberto Nascimento

A divisão do Livro dos Salmos - תְּהִלִּים - (lê-se: therilim - Salmos) em 5 partes é uma das estruturas mais antigas e marcantes do Antigo Testamento.

Por quem?

A tradição rabínica e judaica atribui a organização final do livro ao sacerdote e escriba Esdras com o apoio e ajuda dos temais líderes escribas eruditos que formavam a grande sinagoga  ou assembleia, de acordo com o texto Baraitha - בָּרַיְתָא - Barba Bathra do Talmude - תַּלְמוּד - Babilônico, que também tem outros textos considerados sagrados tais como o Mishmá - מִשְׁנָה - e Gemara.

Quando?

A compilação e estruturação final ocorreram no período pósexílico, por volta do século V a.C. (entre 450 a.C. e 400 a.C.), após o retorno dos judeus do cativeiro na Babilônia e a reconstrução de Jerusalém.

Onde?

A organização ocorreu em Jerusalém (Judeia), durante a restauração do Templo e do culto público comunitário.

Por que?

Existem dois motivos centrais para essa divisão:

Primeiro motivo: Paralelismo com a Torá - תּוֹרָה - conhecida na LXX, Septuaginta, tradução Grega, como Pentateuco πεντάτευχος. A tradição judaica, mencionada no Midrash - מִדְרָשׁ - buscava espelhar os 5 livros da Lei de Moisés (Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio).  Assim como a Torá - תּוֹרָה - trazia os 5 livros da revelação de Deus ao homem, os Salmos seriam os 5 livros da resposta de louvor e oração do homem a Deus.

Segundo motivo: Uso Litúrgico e Doxologias: Para facilitar a leitura pública e o uso no Templo, a coleção foi organizada em blocos, com cada um dos livros terminando em uma doxologia (uma expressão solene de louvor e bênção):

Livro 1 (Salmos 1–41) – Termina em Sl 41:13 ("Amém e Amém").

Livro 2 (Salmos 42–72) – Termina em Sl 72:18-19 ("Amém e Amém").

Livro 3 (Salmos 73–89) – Termina em Sl 89:52 ("Amém e Amém").

Livro 4 (Salmos 90–106) – Termina em Sl 106:48 ("Amém. Aleluia!").

Livro 5 (Salmos 107–150) – Culmina no Salmo 150 inteiro como uma grande doxologia de encerramento.

Sobre o Midrash - מִדְרָשׁ -

Midrash - מִדְרָשׁ - é um método de interpretação da Torá que busca revelar significados profundos e lições ocultas nos textos bíblicos, indo além da leitura literal.

Definição e Origem

A palavra midrash - מִדְרָשׁ - vem do hebraico darash - דָּרַשׁ - (lê-se: darash - verbo) - ou -  דְּרָשׁ -  (lê-se: deresh - substantivo) que significa “pesquisar”, “investigar” ou “interpretar”.

Não se trata de um livro específico, mas de um método e de um conjunto de obras que aplicam esse método. Surgiu por volta do século I a.C. em Israel, inicialmente como tradição oral transmitida de geração em geração, e só foi compilado por escrito por volta do ano 500 d.C., como no Midrash - מִדְרָשׁ - Rabbah.

Função e Propósito

O midrash - מִדְרָשׁ -   busca explorar o sentido profundo das Escrituras, respondendo perguntas como: “Por que este detalhe está aqui?” ou “O que Deus quer ensinar com esta história?”

Ele vai além da interpretação literal (peshat), examinando o texto de forma abrangente para revelar significados ocultos, lições éticas, espirituais e teológicas.

O Talmud - תַּלְמוּד - compara o midrash a um martelo que desperta faíscas adormecidas na rocha, simbolizando a revelação de insights escondidos.

Tipos de Midrash - מִדְרָשׁ -

Existem dois grandes tipos de midrashim - מִדְרָשִׁים - (lê-se: midrashim - esta é a forma plural em hebraico da palavra - מִדְרָשׁ - ou - מִדְרָשׁוֹת - (lê-se: midrashoth).

Midrash - מִדְרָשׁ - Haláquico: interpreta leis da Torá - תּוֹרָה - deduzindo normas práticas a partir dos versículos, como regras sobre sábado, pureza e justiça.

Midrash - מִדְרָשׁ - Hagádico: narrativo e moral, explica histórias, personagens e valores, adicionando detalhes, diálogos e cenas ausentes na Bíblia, sendo amplamente usado em sermões e estudos,

Importância na Tradição Judaica

O midrash preserva a Torá - תּוֹרָה - Oral, complementando a Torá - תּוֹרָה - Escrita, e permite múltiplos níveis de interpretação, pois cada palavra e letra da Torá - תּוֹרָה - é considerada carregada de significado.

Ele serve como ferramenta educativa, espiritual e ética, transmitindo sabedoria ancestral e ensinamentos que se aplicam à vida cotidiana.

Em resumo, o midrash é tanto um método de estudo quanto uma coleção de textos que aprofundam a compreensão da Bíblia Hebraica, revelando histórias, valores e ensinamentos que não são evidentes na leitura superficial do texto.

Sobre o Mishná - מִשְׁנָה -

A Mishná é a primeira grande compilação escrita da Lei Oral judaica, organizada para preservar e transmitir tradições, leis e ensinamentos rabínicos.

A Mishná (em hebraico משנה, "repetição") surgiu como registro da Torá - תּוֹרָה - Oral, que, segundo a tradição judaica, foi transmitida por Deus a Moisés no Monte Sinai juntamente com a Torá escrita.

Sua redação final foi compilada por volta do ano 200 d.C. pelo Rabino Judá ha-Nasi, reunindo séculos de leis, interpretações e discussões rabínicas que até então eram transmitidas oralmente.

A Mishná - מִשְׁנָה - se tornou a base do Talmude - תַּלְמוּד - servindo como referência central para a prática religiosa e estudo judaico.

Estrutura

A Mishná - מִשְׁנָה - é organizada em seis ordens (Sedarim), cada uma abordando diferentes aspectos da vida e da lei judaica, como agricultura, festivais, casamento, leis civis e penais, oferendas do Templo e pureza ritual.

Cada ordem contém tratados (Masekhtot), que são divididos em capítulos e mishnayot (singular: mishná), que significam "ensinamento" ou "estudo"

No total, há cerca de 63 tratados, cobrindo aproximadamente 4200 leis detalhadas.

Conteúdo e Objetivo

A Mishná inclui elementos de Halarrá - הֲלָכָה -   (lê-se: ralarrah) leis judaicas sobre como "andar", "viver".  Agadá - - אַגָּדָה - (lê-se: agadah - narrativas e ensinamentos éticos) e Midrash - מִדְרָשׁ - (interpretações), funcionando como guia para a prática religiosa e moral.

Seu objetivo principal é sistematizar a tradição oral, garantindo que os ensinamentos judaicos fossem preservados e transmitidos de forma organizada, especialmente após a destruição do Segundo Templo em 70 d.C. e a dispersão do povo judeu.

Significado Espiritual

Além de seu valor legal e histórico, a Mishná - מִשְׁנָה - possui um significado espiritual profundo, sendo considerada uma forma de conexão da alma com os fundamentos da história judaica e com Deus. O estudo da Mishná - מִשְׁנָה - é visto como um meio de adquirir mérito e fortalecer o vínculo espiritual com Deus.

Em resumo, a Mishná - מִשְׁנָה -  é uma obra central do judaísmo rabínico, que preserva a Lei Oral, organiza séculos de tradições e interpretações, e serve como base para o estudo religioso, ético e espiritual dentro da tradição judaica.

Sobre Gemara - גְּמָרָא -

A Gemara - גְּמָרָא -  é uma parte do Talmude - תַּלְמוּד - que contém os comentários e análises rabínicas da Mishná - מִשְׁנָה - O termo "Gemara" - גְּמָרָא - deriva do aramaico. A forma verbal é -  גָּמַר - (lê-se: gemar)  e significa "completar" ou "realizar". A Gemara - גְּמָרָא - é fundamental para a interpretação e aplicação das leis judaicas, servindo como um guia para a prática religiosa e filosófica. A Gemara - גְּמָרָא - é composta por discussões e debates entre rabinos, e sua importância se estende ao longo da história do judaísmo, sendo um pilar da tradição rabínica e da vida religiosa judaica.

Sobre Peshat - פְּשָׁט -

Peshat - פְּשָׁט - é um dos métodos clássicos de exegese bíblica judaica, que se refere à interpretação literal e direta dos textos sagrados, especialmente a Torá. O termo hebraico "Peshat" significa "achatar" ou "clareza" ou "simplificar". É frequentemente associado à busca por um significado muito simples, raso, claro e direto das palavras e frases, considerando o contexto histórico e cultural em que foram escritas. Este método é considerado um dos mais diretos para a leitura e compreensão do texto bíblico, diferenciando-se dos outros métodos de exegese, que buscam interpretações mais profundas e ocultas e menos literal.

Pastor Washington Roberto Nasicmento