Uma breve reflexão sobre o dilúvio, a arca de Noé, as leis, no Pentateuco e a cultura mesopotâmica
Pastor Washington Roberto Nascimento
A história do dilúvio e da construção da arca de Deus para a salvação de Noé, sua família e os animais se encontram, primeiramente, em Gênesis capítulos 6 7,9,10 e 11 (veja Gn. 10:1,32; 11:10). Depois, ao longo da Bíblia, nós temos vários textos que falam desse dilúvio, dos dias de Noé, e da fé desse homem de Deus, que encontrou Graça aos olhos do Senhor, e assim foi salvo com toda a sua família; e com o Senhor fez uma aliança (Is. 54:9; Mt. 24:36-39; Lc. 17:27; Hb. 11:7; I Pd. 3:18-22; II Pd. 2:5-9).
Essa história que fala de Noé, da arca e do dilúvio, é uma das histórias mais conhecidas da Bíblia. Nela nós encontramos Deus triste com as coisas erradas que as pessoas estavam fazendo nos dias de Noé. Mas Noé encontrou graça aos olhos do Senhor. Ele cria no Deus Eterno e pela graça ele foi salvo (Hb. 11:7).
Deus instruiu Noé a construir uma arca para salvá-lo, com sua família, e mais os animais. A arca é um símbolo da salvação de Deus. Ela aponta para o Deus que salva e que revelou a Sua Face na pessoa de Jesus no Novo Testamento.
Podemos dizer, em termos figurados, que a arca aponta para o Senhor Jesus Cristo. Nele estamos salvos. O dilúvio aponta para o batismo. Jesus sofre o castigo (a ira) de Deus por nós. No Novo Testamento, temos Jesus sendo batizado, imerso nas águas, como Jonas, o profeta de Deus. Jonas aponta para a morte e ressurreição de Jesus. O batismo de Jesus é sobre isso: Sua Morte e Ressurreição (Mt. 12:39-40; Lc. 11:29-30; Rm. 6:3-6). Em termos gerais, as coisas do Antigo Testamento, históricas ou não, pessoas e coisas, tais como: a semente da mulher (Gn. 3); a semente de Abraão (Gn. 12); o filho de Davi (I Rs. 8:19); a arca de Noé; o tabernáculo; os sacrifícios; Moisés (Dt. 18:15); Jonas (Mt. 12:40; Lc. 11:30); etc.; tudo aponta para Jesus. O Novo Testamento encontra-se presente no Antigo Testamento, mas em figuras, imagens, sombras, sementes (Hb. 10:1; Rm. 15:4). O Antigo Testamento encontra-se revelado e explicado no Novo Testamento (Lc.24:27; 5:39; At. 8:27-35; etc). Tudo se encontra centralizado na pessoa, ensino e obra de Jesus (Ef. 1:3-23).
Depois de quarenta dias, as águas começaram a baixar e a arca parou nas montanhas de Ararate (Gn. 8:4). Noé soltou uma pomba, que voltou com uma folha de oliveira, significando que as águas haviam diminuído. A pomba e a oliveira, (a árvore, a folha, o fruto) na Bíblia, são símbolos de paz, de relacionamento/comunhão com Deus. Quando Jesus foi batizado, o Espírito Santo desceu sobre ele – pousou sobre ele – como uma pomba (Mt. 3:16). O crente é como uma oliveira na Casa do Senhor (Sl. 52:8). O apóstolo Paulo fala dos crentes como varas enxertadas por Deus em Sua oliveira (Rm. 11:24).
As raízes das oliveiras crescem profundamente e prosperam surpreendentemente no deserto. Assim, fazendo florescer o deserto! Este deserto florescente é uma promessa de Deus. Mesmo no deserto, o crente em Deus pode florescer e dar frutos. “O deserto e a terra solitária se alegrarão; o ermo exultará e florescerá como a rosa” (Is. 35:1).
Noé e sua família, então, deixaram a arca, levando os animais com eles, e Deus fez uma aliança com Noé, e fez uma promessa de nunca mais enviar um dilúvio para destruir a terra. A história da Arca de Noé fala do amor de Deus para com o ser humano, de Sua salvação e de Seu desejo de ter comunhão conosco.
Essa história tem tudo a ver com Jesus, de acordo com o que lemos no Novo Testamento. Ela é uma fonte de esperança e consolo para as pessoas em todo o mundo.
A primeira ocorrência das palavras: graça e aliança na Bíblia encontram-se aqui, nessa história fascinante de Noé (Gn. 6:8; 9:9).
A palavra graça em hebraico é: - חן - (lê-se: rên}; e no texto grego da LXX é: Χάρις – (lê-se: káris}.
A palavra aliança em hebraico é: - בְּרִית - (lê-se: berith); e no texto grego da LXX e do Novo Testamento é: - διαθήκη – {lê-se: diathéke), veja em Gênesis 6:8 e 9:9. E tem o sentido de: aliança, pacto, concerto.
A História do Dilúvio encontra-se presente entre vários povos que viviam na Mesopotâmia ou Suméria, mesma região onde Abraão vivia (Gn.11:26-28). Por exempo, a epopeia de Atrahasis é um poema épico da mitologia suméria, sobre a criação e o dilúvio universal. A sua cópia mais antiga data de 1.600 a.C., quando a civilização suméria desaparece ante as invasões dos hititas, e acredita-se que esteja ligada às tradições próprias do templo da cidade-estado de Eridu, vizinha à antiga foz do rio Eufrates, rio que se encontra mencionado na Bíblia (Gn. 2:14). Esse é um dos mitos de criação mais antigos da região do Médio Oriente, narrando a trajetória de Atrahasis. O nome Atrahasis é um nome de uma pessoa semelhante a Noé na Bíblia. Nesta história, Atrahasis é uma pessoa extremamente sábia ou muito inteligente, na verdade, esse é o significado do nome Atrahasis na língua acádia falada na Mesopotâmia. O Épico de Atrahasis e outra história antiga chamada: Épico de Gilgamesh têm muita relação com à história bíblica da criação e do dilúvio.
A diferença entre a narrativa feita pelo povo de Deus na Bíblia e as narrativas que se encontram nas tradições dos outros povos, é notável. No texto bíblico temos o monoteísmo, mas nas narrativas dos povos da Mesopotâmia temos o politeísmo. O Senhor - יְהוָֹה - Esta palavra hebraica é o nome de Deus que aparece 6220 vezes na Bíblia Hebraica - 4 consoantes - É o tetragrama sagrado - ninguém sabe a pronúncia - Esta palavra não é lida pelos religiosos judeus.
O Senhor - יְהוָֹה - é o único Deus. E os motivos na Bíblia, por parte de Deus, para o dilúvio são éticos, morais, espirituais. Mas nas narrativas fora da Bíblia, entre os povos mesopotâmicos, o dilúvio acontece por causa dos deuses, trata-se do politeísmo. E os motivos, desses deuses, para o dilúvio, são vãos. Vejamos um pouco sobre esse ambiente cultural da Mesopotâmia, que tem estreita relação com as narrativas bíblicas.
A Suméria está localizada em uma área que mais tarde foi conhecida como Babilônia e faz parte da Mesopotâmia. Assim, todos os sumérios eram mesopotâmicos, mas nem todos os mesopotâmicos eram sumérios, porque alguns mesopotâmicos eram membros de outros impérios que existiam na área da Mesopotâmia na época.
Os sumérios foram os primeiros povos a migrar para a Mesopotâmia, eles criaram uma grande civilização. Começando há cerca de 5.500 anos, os sumérios construíram cidades ao longo dos rios na Baixa Mesopotâmia, especializaram-se, cooperaram e fizeram muitos avanços.
Entre tais avanços, temos a invenção da linguagem escrita, que é o marco mais importante da história da humanidade.
A Mesopotâmia era um lugar selvagem no alvorecer da Idade do Bronze. Os rios Tigre e Eufrates, citados na Bíblia, como o lugar de um jardim de Deus (Gn. 2:14), criaram uma faixa fértil de terras agrícolas perfeitas desde o Mar Mediterrâneo até o Golfo Pérsico.
Foi nessa região que a civilização humana floresceu. Lá tivemos o desenvolvimento de ferramentas de metal por volta de 4500 a.C, e a roda de fiar do oleiro, que tornou possível o armazenamento e o comércio de produtos agrícolas.
O comércio entre as muitas cidades-estados emergentes da Mesopotâmia tornou-se um elemento básico da cultura urbanizadora e, por volta de 3.000 a.C., vemos os primeiros exemplos da palavra escrita – como recibos.
Esses recibos estavam em recipientes de argila e “carimbados” (marcados) com marcas/sinais de propriedade, e os selos cilíndricos (pequenos) eram enrolados em placas de argila para designar as quantidades de ovelhas ou grãos a serem trocados. Essa forma mais antiga de escrita é conhecida como cuneiforme e, embora os primeiros escritos registrassem transações, ela foi rapidamente adaptada para o registro de ideias.
Felizmente, o cuneiforme foi decifrado com sucesso. Esse foi um trabalho árduo e longo. Heródoto, um famoso historiador grego do século V a.C., menciona os caracteres assírios, que eram cuneiformes, em sua obra: Histórias.
Entre os persas o cuneiforme era usado principalmente para a escrita monumental, o que se pode ver na obra: As Guerras Persas, de Heródoto.
O trabalho para decifrar a escrita cuneiforme podemos dizer que comença no início do século XVII, com o espanhol García de Silva y Figueroa. Seu trabalho foi de grande importância. Ele foi um diplomata espanhol e o primeiro viajante ocidental a identificar corretamente as ruínas de Takht-e Jamshid na Pérsia como a localização de Persépolis, a antiga capital do Império Aquemênida, séc. VI a.C., onde havia escritas cuneiformes.
O nome cuneiforme para tais escritas dos povos mesopotâmicos foi aplicado pela primeira vez por Engelbert Kämpfer, no final do século XVII e início do século XVIII. Suas observações durante sua viagem à Pérsia contribuíram muito para aumentar o conhecimento ocidental da Pérsia e de sua capital, Persépolis.
No final do século XVIII e início do século XIX, o alemão, Carsten Niebuhr, se tornou muito conhecido por seu papel na decifração de antigas inscrições cuneiformes, seguido pelos estudiosos alemães Georg Friedrich Grotefend (1775-1853) e Friedrich Delitzsch (1850-1922), pelo australiano Benno Landsberger (séc. XX) e o estudioso francês Eugène Burnouf que em 1836, abriu os quase dois milhões de tabletes cuneiformes que foram descobertos na região da Pérsia Antiga, semelhantes aos da região da Babilônia, para tradução. Apenas uma fração desses escritos foi traduzida, mas já encontramos histórias, orações, poesias e canções do mundo mesopotâmico.
Um dos exemplos dessas histórias do mundo mesopotâmico é a História do Dilúvio da obra Epica de Gilgamesh, datada de 2100 a.C. Esse é um dos vários exemplos de textos antigos que falam do dilúvio que a Bíblia conta. Tudo aponta para a veracidade do fato – a existência do dilúvio - embora existam diferentes versões, o que é compreensível. A versão bíblica aponta para um único Deus, o Senhor, o monoteísmo, como já mencionamos acima. Enquanto as outras narrativas falam de vários deuses na mesma história do dilúvio, o que revela uma fé politeísta.
As razões do dilúvio nas narrativas são diferentes também. Como já mencionamos anteriormente aqui. No texto bíblico, o escritor apresenta razões éticas e morais para o dilúvio. A causa Bíblica para o dilúvio foi, em síntese, espiritual. Mas nas outras narrativas as razões do dilúvio têm a ver com brigas entres os deuses e o humor deles. Esses deuses – essa fé politeísta – não se comparam com o Deus, o SENHOR, fé monoteísta - da Bíblia. Os deuses dos povos da mesopotâmia, como um todo, foram criados pelos homens. Esses deuses estavam relacionados com o fogo, a água, a matéria (as montanhas, as pedras...), o vento, o trovão, o relâmpago, etc. e nas mudanças repentinas de humor, esses deuses mudavam, também, o comportamento. O Deus, o Senhor, da Bíblia é distinto da criação e das forças da natureza. Ele está acima de tudo e de todos. Ele é o Deus criador e não se confunde com a coisa criada, como nas outras religiões da Mesopotâmia. Essa revelação de Deus, o Senhor, na Bíblia, transcende as ideias evolutivas da religião. O que temos na Torah, em particular, e em todo o texto Bíblico em geral, é uma revolução no pensamento religioso de então. Só há um Deus, o SENHOR.
Outro fato importante para o conhecimento do passado distante, não apenas na Mesopotâmia, mas no Egito Antigo, palco singular da revelação de Deus, foi a descoberta do Pedra de Roseta. O nome Roseta (ou Roshid) vem do nome da cidade no Egito, próxima à cidade de Alexandria, onde a Pedra com os hieroglifos foi encontrada.
Sem a pedra de Roseta, não saberíamos coisa alguma sobre os antigos egípcios, e os detalhes de seus três mil anos de história (a.C.) permaneceriam um mistério. Ela foi descoberta por um capitão francês chamado Pierre Bouchard em 1799 (d.C,), durante as guerras napoleônicas. Os Ingleses a receberam dos franceses como um presente, e por isso ela se encontra no Museu Britânico, em Londres, desde de 1802.
O acesso a esses antigos escritos - hieróglifos egípcios - só foi possível por causa da Pedra de Roseta. Quando ela foi descoberta, ninguém sabia ler (interpretar) os hieroglifos egípcios.
Como as inscrições na Pedra de Roseta dizem a mesma coisa em três escritas diferentes – hieroglifo, demótico e grego – e os estudiosos ainda podem ler o grego antigo, a Pedra de Roseta tornou-se uma chave valiosa para decifrar os hieróglifos que estavam na Pedra. Graças aos estudiosos, Dr. Thomas Young (1773–1829), da Inglaterra; e Jean-François Champollion (1790-1832), da França. Eles foram capazes de não apenas decifrar os hieroglifos na Pedra de Roseta, mas vários textos antigos em hieroglifo do Egito Antigo, que lançam luz sobre a cultura daquele povo naquele tempo e espaço geográfico. Tudo isso nos ajuda a compreender ainda melhor o texto bíblico que surgiu em um contexto histórico concreto.
É impossível negar a influência da cultura dos povos da Mesopotâmia nas narrativas bíblicas sobre a criação, o dilúvio, leis, etc. Abraão e toda a sua família eram caldeus, isto é, da Babilônia, da Mesopotânia (Gn. 11:27-32).
O crescimento social, rico e rápido, das cidades-estado da Mesopotâmia provocou muitas guerras. De 3000 a.C. até a conquista final da região por Alexandre, o Grande, em 332 a.C., a Mesopotâmia foi inundada por conflitos sangrentos.
A Mesopotâmia era o lar de muitos centros urbanos, cada um abrigando uma cultura única e uma linhagem de reis. Ao redor dessas cidades havia terras agrícolas, mantidas férteis por valas de irrigação. Quanto mais terras agrícolas e irrigação uma cidade controlava, mais poderosa ela se tornava.
Por 3.000 anos, essas cidades-estado na Mesopotâmia lutaram, negociaram, tributaram e assassinaram umas às outras. Por 1000 anos, os sumérios dominaram, até a derrota temporária para os acadianos de Akkad. A Babilônia subiu ao poder em 1900 a.C. e competiu com os hititas de 1450-1200 a.C. E assim por diante. Todos esses povos - sumérios, acadianos, babilônios, assírios, hititas, etc. - viviam na Mesopotâmia.
Mas neste período violento e confuso algumas coisas extraordinárias aconteceram. Em 2140 a.C., Gudea de Lagash, um rei sumério, percebeu que poderia estabelecer o seu domínio de forma mais eficaz com palavras do que com a espada. Gudea entendeu que o poder estável cresce a partir da ordem, então ele financiou grandes obras públicas: templos para os populares deuses locais: Ningirsu, Nanshe, Ningishzida e Geshtinanna, com sacrifícios de animais. Essas estruturas – templos - imponentes enfatizavam os valores da paz e da religião e reforçavam a autoridade de Gudea. Por fim, e de maneira mais brilhante, Gudea encomendou pequenas estátuas móveis de si mesmo para serem entregues nas cidades de seu reino, tornando seu rosto uma referência em toda a Mesopotâmia e tornando-se a primeira celebridade de enorme alcance popular que se tem notícia no mundo antigo.
380 anos depois, o sexto rei da Babilônia, Hamurabi, criou outra característica definidora da civilização humana: o primeiro código unificado de leis. Gravadas em uma pedra de basalto de 2,1 metros de altura, as 282 leis estabeleceram termos de julgamento para transações comerciais, salários adequados e relacionamentos, incluindo divórcio e herança. As leis também definiram um conjunto estrito de punições para quem quebrasse as leis, incluindo a lex talionis, ou seja, o sistema olho por olho de punição retaliatória.
O Código de Leis de Hamurabi não foi o primeiro conjunto de leis na Mesopotâmia, mas foi o primeiro a ser compilado por especialistas jurídicos, revisado, editado e codificado em uma definição universal de lei - estabelecendo um padrão para a justiça governamental que está em vigor até hoje. O que encontramos em Êxodo capítulos 20, 21, 22 e 23 tem muito a ver com o código do Rei Hamurabi, que era não apenas honrado acima de todos os reis daquela região, mas adorado como Deus. Vale a pena lembrar, mais uma vez, que Abraão, o pai da nação de Israel, veio da Babilônia, da terra de Hamurabi (Hb. 11:26-29).
Na Bíblia temos a revelação de Deus que surge marcada pelos valores culturais de seu tempo e dos povos ao derredor. A revelação de Deus não surge em um vácuo, um vazio. Ela acontece em um lugar concreto e reflete a cultura e a sociedade de sua época. Isso só favorece a tese de que a revelação de Deus acontece na história, ela é história, ela tem lugar no tempo e no espaço concretos.
Precisamos da sabedoria de Deus, de Seu Santo Espírito, para extrairmos do texto bíblico aquilo que é essencial, o espírito e não a letra (II Co. 3:6).
Um forte abraço.
Pastor Washington Roberto Nascimento.
Bibliografia