Uma breve reflexão teológica no livro Cântico dos Cânticos
Pastor Washington Roberto Nascimento
O livro de Cântico dos Cânticos (ou Cantares de Salomão) é um dos textos mais singulares da Bíblia. À primeira vista, parece apenas um poema de amor erótico e apaixonado entre um homem e uma mulher. Deus não é mencionado explicitamente nenhuma vez no texto original (com uma possível exceção poética em 8:6).
O texto de Cântico 8:6 no Hebraico diz assim:
שִׂימֵנִי כַחֹותָם עַל־לִבֶּךָ כַּחֹותָם עַל־זְרֹועֶךָ כִּי־עַזָּה כַמָּוֶת אַהֲבָה קָשָׁה כִשְׁאֹול קִנְאָה רְשָׁפֶיהָ רִשְׁפֵּי אֵשׁ שַׁלְהֶבֶתְיָה׃ -
Em Português:
Tradução pessoal e livre
Põe-me como um selo sobre o teu coração, como um selo sobre o teu braço, pois o amor é forte como a morte, cruel como o sheol/a sepultura; o ciúme é como as chamas de um fogo ardente/veementes labaredas (do Senhor).
NVI – Bíblia Nova Versão Internacional
Ponha-me como um selo sobre o seu coração; como um selo sobre o seu braço; pois o amor é tão forte quanto a morte e o ciúme é tão inflexível quanto a sepultura. Suas brasas são fogo ardente, são labaredas do Senhor.
A palavra hebraica: - שַׁלְהֶבֶתְיָה – (lê-se: shalerevet-yah) - No texto hebraico original do versículo 6, a palavra utilizada para "chamas brilhantes" ou "chama poderosa" é שַׁלְהֶבֶתְיָה (shalereveṯ-yāh). Essa palavra é uma combinação de duas partes: - שַׁלְהֶבֶת – (lê-se: shalerevet) - que significa uma chama intensa ou labareda; e - (יָה) – (lê-se: yah) este sufixo é uma forma poética abreviada de - יְהוָֹה - (lê-se: Yehovah), o nome pessoal sagrado de Deus na Bíblia Hebraica. Entre tantos exemplos, há o Salmo 150:1.
- הַלְלוּ יָהּ ׀ הַלְלוּ־אֵל - (lê-se: ralelu-yah – barra – halelu-el) - Aleluia
o mesmo - יָהּ - "Yah" encontrado na palavra – Aleluia -, que significa: Louvai a Yah - (Senhor) - Louvai a El (Deus).
Então, onde está a teologia em um livro que fala sobre beijos, abraços e a beleza do corpo humano?
A teologia de Cântico dos Cânticos se revela justamente na redenção do amor físico e na forma como o amor humano reflete o divino. Ao longo da história, essa teologia foi interpretada através de três lentes principais.
As Três Lentes Teológicas
1. A Lente Literal-Histórica: A Redenção da Criação e do Casamento
Para a teologia bíblica moderna, o livro é uma celebração da bondade da criação divina. No livro de Gênesis, a queda da humanidade trouxe distorção e vergonha para a sexualidade. Cântico dos Cânticos funciona como uma espécie de "retorno ao Éden".
O corpo e o prazer são bons: O livro afirma que o desejo físico e o prazer emocional dentro do compromisso mútuo são presentes de Deus, livres de culpa ou tabu.
Igualdade e Mutualidade: Diferente de grande parte da literatura antiga (e até de outras partes do Antigo Testamento), a voz feminina é predominante e ativa. Ela busca, deseja e expressa seu amor com a mesma intensidade que o amado.
2. A Lente Alegórica Judaica: Deus e Israel
Historicamente, o judaísmo garantiu a entrada de Cânticos no cânone sagrado ao lê-lo como uma grande metáfora do Pacto.
O Amado representa o próprio Deus – O Senhor Deus (- יְהוָה אֱלֹהִים -).
A Amada (a sulamita) representa o povo de Israel (Ez. 16:8; Os. 2:19-23; Is. 62:4-5).
As idas e vindas dos amantes no poema refletem os momentos de intimidade, o exílio, o arrependimento e a busca constante de Deus por Seu povo ao longo da história.
3. A Lente Alegórica Cristã: Cristo e a Igreja (Ef. 5:25-27; Ap. 19:7-9; 21:2).
Seguindo a tradição judaica, os pais da Igreja e os místicos medievais (como São Bernardo de Claraval) adaptaram essa leitura para o Novo Testamento.
O Amado é Jesus Cristo, o Noivo.
A Amada representa a Igreja.
Sob essa ótica, os versos apaixonados descrevem a intensidade do amor de Cristo pela humanidade, culminando no sacrifício da cruz, e o anseio da alma humana em se unir espiritualmente a Ele.
Os Grandes Temas Teológicos do Livro
Independentemente da linha de interpretação que você escolha, três grandes pilares teológicos sustentam a estrutura de Cânticos:
Põe-me como selo sobre o teu coração... porque o amor é forte como a morte, e o ciúme é duro como o inferno; as suas brasas são brasas de fogo, labaredas do Senhor — (Ct. 8:6).
A Natureza do Amor Verdadeiro: O amor descrito não é apenas um sentimento passageiro, mas uma força inabalável, exclusiva e permanente ("forte como a morte").
O Antídoto ao Ascetismo e ao Hedonismo: O livro rejeita duas visões distorcidas. Ele diz não ao ascetismo, que consiste na ideia de que o corpo e o sexo são inerentemente pecaminosos. Essas ideias se encontram também no Hinduísmo e Budismo que defendem: Jejuns rigorosos e dietas restritivas, abstenção sexual, celibato, pobreza voluntária e isolamento como a reclusão em mosteiros, além de autoflagelação ou submissão a dores físicas.
O livro Cântico dos Cânticos rejeita, também, ao hedonismo - o sexo puramente casual e descartável. O modelo de Cânticos une o prazer ao compromisso de aliança.
O Amor Humano como Ícone do Divino: A teologia do livro sugere que a melhor metáfora que os seres humanos possuem na Terra para vislumbrar a intensidade do amor de Deus por nós é a paixão e a entrega total entre a esposa e o seu esposo, como dois amantes comprometidos um com outro diante de Deus.
Em resumo, a teologia de Cântico dos Cânticos nos ensina que o sagrado e o humano não estão separados. Deus se importa com a nossa capacidade de amar e ser amado, e o amor humano, em sua expressão mais pura e fiel, é uma fagulha do próprio fogo divino.
Pastor Washington Roberto Nascimento