Uma reflexão sobre o tema da circuncisão

Data publicação 22/11/2019

Uma reflexão sobre o tema da circuncisão

Pastor Washington Roberto Nascimento

Êxodo 4:24-26.

“E aconteceu no caminho, numa estalagem, que o Senhor o encontrou, e o quis matar”.

“Então Zípora tomou uma pedra aguda, e circuncidou o prepúcio de seu filho, e lançou-o a seus pés, e disse: Certamente me és um esposo sanguinário”.

“E desviou-se dele. Então ela disse: Esposo sanguinário, por causa da circuncisão”.

Estamos diante de um texto que trata da importância da circuncisão para o povo de Israel, para o escritor bíblico do texto do Antigo Testamento. A história tem a ver com Moisés e envolve toda a sua família.

Há vários textos na Bíblia que falam da circuncisão.  Religiosamente falando, ela é um símbolo da aliança entre Deus e Abraão (Gn. 17:1-10). No Novo Testamento aprendemos que a circuncisão que importa para Deus é aquela que ocorre no coração (Rm. 2:29).

Como o apóstolo Paulo foi corajoso ao escrever: “se vos deixardes circuncidar, Cristo de nada vos aproveitará” (Gl. 5:2). Que mudança de paradigma em termos espirituais! Cristo é superior a tudo e a todos. Nele tudo se fez novo.

Em termos físicos a circuncisão é uma pequena operação para remoção do prepúcio, uma pele que cobre a glande do pênis e tem valor higiênico e favorece a relação sexual.

Em Êxodo 4:24 é dito que o Senhor o encontrou no caminho. Quem Deus encontrou ao longo do caminho? Para muitos a resposta é Moisés. Ele estava a caminho do Egito, do cumprimento de sua missão dada por Deus (Êx. 4:1-23).

Na Bíblia aprendemos que as palavras não devem ser compreendidas literalmente. A leta mata, cega, o Espírito vivifica, ilumina (II Co. 3:6).

Vamos analisar o texto com todo o cuidado que ele requer. Em Êxodo 3:24, a palavra traduzida por “estalagem” – מָלוֹן (malon)não deve ser entendida literalmente como as estalagens ou pousadas de nossos dias.  Esta é uma palavra que poderia se referir a qualquer lugar adequado para se acampar naquele tempo, mais de três mil anos atrás. Esta palavra poderia se referir a uma caverna ou um prado contendo algumas árvores e alguma água ou fonte de água (Gn. 42:27; Js. 4:1-3).

Em Êxodo 3:24 é dito que o Senhor o encontrou e o quis matar. Como podemos interpretar isso?

Primeiro: Quem o Senhor queria matar? Moisés? Um de seus filhos (Êx. 4:20; 18:1-4)? Isso não é dito no texto. Bem, uma possível interpretação é que Moisés ou um de seus filhos estivesse doente, prestes a morrer, e isso foi interpretado como se o Senhor o quisesse matar.

Naquele tempo o que se acreditava era que tudo procedia de Deus, Ele é considerado a fonte de bênçãos e maldições, de vida e morte, saúde ou enfermidade (Jó 1:21-22; 2:10). Neste mesmo livro do Êxodo (4:21; 7:3; 9:12; 10:1, 20, 27; 11:10; 14:4, 8) é dito que Deus endureceu o coração de Faraó, e que a cegueira, a surdez são obras de Deus (Êx. 4:11). Chamamos isso de hebraísmo.

Hebraísmo diz respeito a uma característica da língua hebraica, sua cultura, seu espírito, sua maneira de dizer as coisas, seu pensamento, sua fé etc. Tais expressões idiomáticas não devem ser interpretadas literalmente, pois não se aprende o significado delas através da simples tradução literal ou individual de cada palavra. A título de exemplo, temos Malaquias 1:2-3 e Romanos 9:13 – “Amei a Jacó e odiei a Esaú” – Tal hebraísmo significa: “Agradei de Jacó, mas não agradei, não tive prazer com Esaú”.

A declaração de que Deus quis mata-lo é um hebraísmo. Não devemos tomar este texto literalmente como se Deus quisesse matar a Moisés. Isso não faz sentido à luz do contexto, pois Deus o havia chamado, equipado, orientado, e, Moisés, estava no caminho da obediência. Quando um texto não faz sentido o problema não está no texto, está em nossa limitação para entende-lo. Assim sendo, este texto precisa ser interpretado com muito cuidado, pois é de deixar o leitor perplexo com a fúria de Deus, o leitor de hoje pode facilmente ficar com os cabelos pra cima, apavorado diante de uma interpretação literal.

A bem da verdade, precisamos dizer que o nome: Moisés, não aparece nestes três versículo de Êxodo 4:24-26. Mas, é claro que no versículo 25 e 26 aparece os substantivos:    חֲתַ֥ן – (ratan – pronúncia) - esposo, e o substantivo: דָּמִ֖ים – (damim – pronúncia) – sanguinário. Certamente que isso se encontra relacionado com o sangue causado pela circuncisão.

A propósito da análise deste texto, outro fato interessante é que no texto hebraico de Êxodo 4:24 diz que foi o Senhor quem o encontrou – יְהוָ֔ה – (Iehovah sugestão de pronúncia – palavra impossível de ser pronunciada). Trata-se do nome de Deus. Mas, na Bíblia Grega, na Septuaginta, esta palavra - יְהוָ֔ה -  foi traduzida por:   ἄγγελος κυρίου – anjo do Senhor.

No texto hebraico Êxodo 4:24 não aparece o nome de Moisés. A tradução em Português que traz o nome de Moisés é interpretativa. O que nós encontramos é o equivalente ao pronome: ele – sufixo pronominal da terceira pessoa, masculino, singular (na língua hebraica). Na nossa tradução abaixo o apresentamos em Português como um pronome oblíquo átono.  O texto original diz assim: “E aconteceu que ao longo do caminho, em um acampamento, o Senhor o encontrou e procurou mata-lo”.

Texto Hebraico   :וַיְהִ֥י בַדֶּ֖רֶךְ בַּמָּלֹ֑ון וַיִּפְגְּשֵׁ֣הוּ יְהוָ֔ה וַיְבַקֵּ֖שׁ הֲמִיתֹֽו׃

 

Texto da Septuaginta:

Εγένετο δὲ ἐν τῇ ὁδῷ ἐν τῷ καταλύματι συνήντησεν αὐτῷ ἄγγελος κυρίου καὶ ἐζήτει αὐτὸν ἀποκτεῖναι.

Como podemos ver, no texto original hebraico/grego, não encontramos o substantivo próprio: Moisés.

Em Êxodo 4:25 diz que a esposa de Moisés, Zípora, pegou uma pedra aguda e cortou o prepúcio de seu filho, o que significa a circuncisão. O texto prossegue dizendo que ela o atirou aos seus pés. Não diz, no texto, se foi aos pés de Moisés ou de seu filho. Bem, aqui estamos diante de um eufemismo. A palavra pés na Bíblia pode ser um substituto da palavra pênis (Rt. 3:3-8; Is. 6:2).

Em Êxodo 4:26 temos uma síntese e explicação do que os versículos 24 e 25 de Êxodo 4 contam. A palavra Deus ou Senhor não aparece no versículo 26. Diz apenas que: “E Ele o deixou ir, então ela disse: Marido sanguinário por causa das circuncisões”. É interessante observar que a última palavra do versículo 26 é um substantivo, feminino, plural: לַמּוּלֹֽת  (lamuloth – pronúncia) – circuncisões. Baseado neste texto, podemos dizer que houve a circuncisão dos dois filhos de Moisés: Gerson e Eliezer (Êx. 18:3-4).

Este texto de Êxodo 4:24-26 nos mostra que Moisés, possivelmente, não havia circuncidado um de seus filhos ou a ambos. Ao fazê-lo no caminho do cumprimento de sua missão, acabou trazendo para sua família, sua esposa, grande aborrecimento e contenda.

O escritor registra esta história com o propósito de explicar que tudo isso aconteceu porque Moisés não foi cuidadoso em observar, obedecer a Aliança de Deus com Abraão, o pai da Nação de Israel (Gn. 17). Tal desobediência lhe custou caro. Ele ou um de seus filhos (ou ambos os filhos) quase perdeu a vida. E ele, Moisés, perdeu a companhia de sua família, pois Zípora e seus filhos acabaram voltando para a companhia do sogro de Moisés, Jetro (Êx. 18:1-6).

O registro desta história também nos mostra como a circuncisão era algo importante para o escritor bíblico e para a sua comunidade.

Como podemos aplicar este texto as nossas vidas ainda hoje? Há várias lições:

A primeira é sobre a importância da obediência da Aliança que Deus tem feito conosco. Nossa responsabilidade de passar para os nossos filhos, desde a mais tenra idade, os ensinos do Senhor não é menor que a responsabilidade de Abraão e seus descentes no tempo do Antigo Testamento.

A segunda lição diz respeito ao risco que corremos de comprometimento de nossa vocação e missão (ministério) por não sermos fieis a Aliança que o Senhor tem feito conosco. A obra que Moisés tinha em mãos para realizar ficou ameaçada de não cumprimento tudo por causa de sua desobediência.

A terceira lição é sobre a revelação progressiva. De uma certa forma, todas as alianças do Antigo Testamento apontavam para uma aliança maior e melhor, que tomou lugar na história com o Filho de Deus, o Senhor Jesus Cristo (Hb. 1:1-4; 3:1-6).

A quarta lição é sobre o propósito do texto bíblico. Ele vai além daquilo que o escritor pensou, pois para nós não basta compreender o propósito do escritor (humano), mas o propósito do autor (divino) do texto, Deus.

Graças a Deus, à luz do texto bíblico, outra lição que ainda temos é sobre a mulher de Moisés. Foi ela quem fez o que tinha que ser feito. Ela providenciou a circuncisão, a obediência do ensino do Senhor conforme Sua Aliança com Abraão.

A Bíblia diz que a mulher sábia edifica o seu lar (Pv. 14:1). Eis o que Zípora representa para o lar de Moisés. Ela aparece aqui como uma mulher de ação, que faz o que precisa ser feito. Como precisamos de pessoas assim! Ao circuncidar seus filhos ela coloca em prática aquilo que o sábio de Israel ensinaria anos mais tarde: “Ensina a criança no caminho que deve andar” (Pv. 22:6), o caminho do Senhor, o caminho de Sua Aliança.

Foi assim que Zípora voltou para casa de seus pais com seus filhos, deixando o seu esposo, Moisés, totalmente livre para se dedicar a libertação do povo de Deus naquele momento crucial da história da redenção.

Pastor Washington Roberto Nascimento.